Em Mente Absorvente, e também no Encontro em São Carlos, li e ouvi coisas interessantes sobre a Linguagem. Um ponto em especial me chamou a atenção. Um mecanismo da linguagem tão importante quanto o falar, o escrever e o ler: A escuta.

É através da escuta que o bebê irá, posteriormente, reproduzir a fala. A criança precisa ouvir adultos e outras crianças falando. Se a abstermos desse convívio, ela não será capaz de falar nada. A criança aprende a falar através de uma força interna, absorvendo tudo de seu ambiente, observando, lendo lábios e imitando. E, por isso, é tão importante como falamos, o que falamos e como interagimos com ela.

A mente da criança trabalha a linguagem no inconsciente e pequenos saltos vão acontecendo do balbuciar à explosão da fala. E ela faz isso sozinha, pela sua observação e esforço próprio. Com aproximadamente um ano e meio, a criança começa a perceber que cada coisa tem um nome. Que prato é prato, colher é colher. Esse processo natural ocorre até, mais ou menos, os dois anos e meio. Existe ainda um segundo período em que a criança começa a adquirir vocabulário e compor frases mais elaboradas. Esse período se estende até os cinco ou 6 anos. Entre o início da fala e a leitura há muitas outras habilidades que a criança precisa desenvolver e o faz em paralelo.

Em O Segredo da Infância, no capítulo 26 – O início do ensino, Montessori fala sobre a importância de se treinar a mão para a escrita. É neste mesmo capítulo que Montessori divide um momento em que a ansiedade, podemos assim dizer, atrapalhou esse início de ensino e foi preciso recuar.

Demasiada pressa de nossa parte em explicar os caracteres impressos teria exaurido esse interesse e essa energia intuitiva. Também uma intempestiva insistência em fazer ler as palavras nos livros seria uma intervenção negativa, que teria, por uma finalidade sem importância diminuído a energia daquelas mentes dinâmicas. E assim, os livros permaneceram por muito tempo nos armários (Montessori, O Segredo da Infância).

O milagre da escrita, como cita no livro, despertou nas crianças que tinham cerca de quatro anos, não antes disso. Há certamente um motivo para as letras de lixa estarem na sala de 3-6 em uma Escola, por exemplo. Não é o adulto quem vai pegar a mão da criança e forçar que passe o dedo em um material áspero. É necessário que as mãos sejam suficientemente firmes para que a criança possa fazê-lo sozinha, por seu esforço e vontade.

Os sinais, graças aos que a mestra poderá reconhecer o grau de maturidade para uma escrita espontânea, são: o paralelismo e a retidão dos traços no preenchimento de figuras geométricas, a exata interpretação das letras do alfabeto em letras de lixa, com os olhos fechados, e a segurança e prontidão na composição de palavras (Montessori, O Segredo da Infância).

Montessori diz ainda que ensinar numeração para crianças menores de três anos e meio ou quatro é um obstáculo, posto que, ela pode conseguir repetir uma sequência de números porque decorou e repete. Entender a quantidade que isso representa é mais complexo e exige uma certa maturidade da criança. Antes disso, a criança fica confusa. Os algarismos de lixa são apresentados as crianças quando já começaram a aprender a ler e escrever.

Assistimos nossos filhos crescerem e aprenderem coisas novas todos os dias e crescem também nossas expectativas. Conhecemos Montessori e descobrimos que as crianças são capazes de se autoeducar e serem alfabetizadas antes dos 6 ou 7 anos, como em outros métodos e isso nos fascina. E é fantástico mesmo. No tempo certo, no tempo da criança. Respeitando os períodos sensíveis e, principalmente, a natureza da criança.

Procurei trazer aqui, quase todos os pontos em que a idade das crianças é citada, para que haja mais clareza. Antes dos três anos, as crianças passam por outras salas, fazem outras coisas, trabalham outras habilidades, principalmente, o movimento. É preciso cuidar da nossa ansiedade ou faremos o contrário do que o Método prega.

Quando assisti a guia apresentar o material dourado e a ouvi dizer que uma criança de quatro anos e meio já é capaz de conhecer o milhar, eu tive uma crise de choro. Chorei muito mesmo. Minha filha, aos quatro anos, contava até trinta e um, porque na escola eles começam a ensinar os números pelo calendário. Eu chorei por ela e por todas as crianças que não têm a oportunidade de estar em uma escola Montessori.

Em São Carlos, em um dos intervalos eu conversei por um instante com Gabriel sobre isso. Gabriel respondeu dizendo que já pensou muito em como ajudar nesses casos, mas, que ainda não descobriu uma forma de se levar o material para as casas. No decorrer do Curso, Gabriel comenta que para uma sala montessoriana funcionar como se deve, há de se ter muitas crianças.

Neste momento, me veio imediatamente à cabeça uma fala da diretora da escola de minha filha, respondendo a uma mãe que pedia desesperada que ela lhe desse dicas de como fazer sua criança cumprir os combinados e obedecer em casa, como fazia na escola, ao que a diretora respondeu:

Eu não posso ensinar você a fazer o que fazemos aqui. Não funcionaria na sua casa. Temos muitas crianças na escola. Em alguns momentos os bebês e os maiorzinhos ficam no mesmo ambiente no pátio. Se observam. Interagem. É um meio social. É diferente da casa. (Luciana Pierry)

Usando termos diferentes, Gabriel e a diretora da escola com proposta Construtivista, estavam dizendo a mesma coisa. O que se faz na escola, nem sempre  tem o mesmo efeito em casa.