Em O Segredo da Infância, no capítulo “A dignidade”, Montessori conta um episódio de quando resolveu ensinar as crianças a assoar o nariz. As crianças assistiam atentas e em silêncio. Ao final, a aplaudiram veementemente. Montessori não entendeu de imediato o porquê do sucesso da sua aula. Analisando um pouco melhor, percebeu que tinha tocado em um ponto sensível da criança: a dignidade.

Ao invés de humilhar ou rotular de catarrentas aquelas crianças, como faziam a maioria das pessoas, Montessori lhes proporcionou a dignidade de limpar o próprio nariz sem a interferência ou repreensão de um adulto.

Aquele dia não terminou assim: quando eu estava indo embora, as crianças começaram a gritar: “Obrigado, obrigado pela aula”. E quando saí vieram atrás de mim pela rua, fazendo uma procissão silenciosa ao longo da calçada, até que lhes disse: “Quando voltarem, corram na ponta dos pés e tomem cuidado para não esbarrar nas quinas das paredes”. Deram meia-volta e desapareceram pelo portão adentro como se voassem. Eu havia tocado na dignidade social daquelas pobres crianças (Montessori, O Segredo da Infância).

Montessori havia conquistado aquelas crianças, que agora lhe obedeciam por livre vontade. Quem já teve a oportunidade de fazer algum curso do Método deve conhecer essa passagem de Montessori. Ela é bem famosa.

Um pouco da nossa vivência

E eis que esta noite, lembrei-me dela. E não foi porque eu estava procurando um tema para o próximo post. Nós tivemos mesmo uma noite mal dormida, por conta de um resfriado. Eu não sei aí, mas aqui, o nariz da menina nunca mais foi o mesmo depois de ir à escola.

Ensinei a menina a assoar seu nariz, tão logo conheci essa história. Não só com lenço quando está resfriada, mas a lavar o nariz durante o banho. E ela nunca se esquece de fazer isso.

A menina ainda gosta de adormecer com os braços enroscados em meu pescoço e, confesso, eu também adoro. E, a depender do cansaço, eu acabo por adormecer em sua cama.

E esta noite eu estava em sua cama, quando percebo ela se levantar. Fico esperando o chamado. Nada. Ouço um barulho. Ela estava incomodada com o nariz e havia ido assoá-lo sozinha. Foi ao banheiro jogar o papel no lixo. E não se esqueceu de passar o álcool nas mãos depois. Voltou, me abraçou e adormeceu. Como é típico destas noites com resfriado, houve um novo despertar.

De novo, a menina se levanta e agora vai em direção a cozinha, busca sua água, bebe um pouco e traz a garrafa ao quarto, avisando: eu vou deixar aqui para eu pegar se quiser mais depois. Eu só respondi que tudo bem e voltamos a dormir, ou pelo menos tentamos. A menina havia bebido bastante água e veio a vontade de fazer xixi. Pela terceira vez, a menina se levanta, agora, para ir ao banheiro.

A menina se levantou três vezes, eu pensei em levantar e intervir as três vezes. E repensei três vezes, ao perceber ela tão disposta a agir por si mesma. Dei a criança o direito de ter sua dignidade respeitada.

Sabia que a mãe estava disponível se chamasse, mas a menina só queria mesmo que a mãe estivesse ali para abraçá-la e adormecer de novo depois.

Sinto os olhos e o corpo pesados de sono e cansaço, mas a alma e o coração estão leves.

Incrível essa paz que Montessori nos traz quando conseguimos agir como adultos preparados com nossa criança.