Em o Segredo da Infância, Montessori declama uma das partes mais bonitas e tocantes do livro: A missão dos pais. E penso que devemos começar Montessori por ela, pelos Direitos das Crianças. Todas elas!

Os pais não são os construtores da criança, mas os seus guardiães. Devem protegê-la e cuidar dela num sentido profundo, como uma missão sagrada, que supera os interesses e conceitos da vida exterior. Os pais são guardiães sobrenaturais, como os anjos da guarda de que fala a religião, subordinados única e diretamente ao Céu, mais fortes que qualquer autoridade humana, unidos à criança por laços indissolúveis ainda que invisíveis. Para tal missão, os pais devem purificar o amor que a natureza lhes depositou no coração e compreender que esse amor é parte consciente de um sentimento mais profundo, que não deve ser contaminado pelo egoísmo ou pela inércia. Os pais devem entender e abraçar a questão social que hoje em dia se impõe: a luta para que o mundo reconheça os direitos da criança (Montessori, O Segredo da Infância)

É certo que tivemos muitos avanços desde os escritos de Montessori. A criança hoje tem muito mais direitos garantidos, ao menos no papel. Ainda há fome, analfabetismo e morte no mundo, mas em número muito menor. Fico feliz em ver tantos movimentos em favor da educação para a paz proposta por Montessori, grupos onde mães buscam ajuda para entender melhor sobre a infância. É crescente o número de páginas que fala sobre educação de filhos.

Nós amamos os nossos filhos, damos o nosso melhor para eles, usando as ferramentas e o preparo que temos. No entanto, nas últimas linhas do capítulo Montessori fala sobre ignorarmos o valor, o poder e a natureza da criança. E nesses pontos, ainda hoje há de se lutar por elas.

A educação tradicional baseada em castigos, ameaças, prêmios e recompensas ainda é predominante nas famílias, nas escolas e na Sociedade como um todo.

Para abraçar a questão social, lutar pelo direito das crianças e fazer a revolução que Montessori propõe, precisamos ir além da nossa casa ou escola. Precisamos amar e lutar pelo direito de todas elas, não só dos nossos filhos.

Um dos conselhos mais ricos que ouvi de Gabriel Salomão, em São Carlos, foi:

Quando você for conversar com famílias, não fale em meu nome, nem mesmo em Montessori. Fale em nome da Criança (Gabriel Salomão).

Então, podemos contar para mais pessoas, incansavelmente, que se a criança tiver um ambiente que seja favorável ao seu desenvolvimento. Se os adultos mais próximos a observarem com a paciência de um cientista, interessando-se de fato em aprender e entender o que a criança quer expressar em cada comportamento. Se for dada à criança a oportunidade de trabalhar sem interrupções desnecessárias. Se for possível caminhar e ir a natureza todos os dias. Se permitirmos que ela seja dirigida pelo seu guia interior que lhe aponta, quase intuitivamente, cada habilidade a ser trabalhada, a criança é capaz de formar a si mesma e ainda mais, formar uma nova Humanidade.

Podemos começar conversando com a professora ou a diretora da escola convencional do nosso filho, levando a ideia de um novo olhar, um texto, um vídeo.

Criar uma Página e me dedicar a escrever com base na literatura de Montessori, fazendo um mix com as vivências da minha família, foi a melhor forma que encontrei para estudar e isso me ajuda com a minha criança, além de me trazer uma responsabilidade ainda maior, porque há de se ter coerência entre o que se escreve e o que se pratica.

Encontrei em Montessori não só uma “missão de mãe”, mas também uma missão de vida, um propósito maior.

Sou uma pequena formiga, começando sua pequena revolução.

Tudo começou por amor a minha criança e hoje se tornou uma questão social pelas crianças e pela Humanidade.