É no capítulo 44 de O Segredo da Infância – As características dos dois tipos de trabalho – que chegamos a uma das frases mais conhecidas do Método Montessori: “Ajudem-me a fazer sozinho”.

Na citação abaixo, descobrimos que essa não é uma sentença de Montessori, mas uma revelação das crianças da Casa dei Bambini.

O adulto executa tudo em lugar da criança porque se orienta segundo suas próprias leis naturais de trabalho: mínimo esforço e economia de tempo. O adulto, mais hábil e melhor formado do que a criança, procura vesti-la e banhá-la, transportá-la no colo ou carrinho, reordenar aquilo que a cerca, sem permitir que própria criança participe de tais operações. Quando se concede à criança um pouco de liberdade “no mundo e no tempo”, o menino, como primeira reação de defesa, exclama: “Eu quero fazer sozinho!”. Nas nossas escolas, ambiente adequado às crianças, foi pronunciada pelas crianças a seguinte frase, reveladora de uma necessidade interior: “Ajudem-me a fazer sozinho” (Montessori, O Segredo da Infância).

O trabalho da criança, assim como o trabalho do adulto são necessários para a vida da humanidade, contudo, são trabalhos diferentes, explica Montessori. O adulto trabalha para atingir um objetivo, uma meta, um produto final. Se possível com máxima produção e com esforço mínimo. A criança trabalha para produzir o Homem. Um trabalho incansável, onde deposita todos os seus esforços até chegar à perfeição. Não há um objetivo exterior, é mesmo um processo intrínseco.

Esse trabalho é feito de atividade, de movimento, de experiências, de exploração do ambiente. E assim a criança coordena os movimentos, interioriza suas emoções e forma sua inteligência. Quando a criança tem liberdade para repetir a atividade até cessar a sua necessidade, ela se mostra feliz e revigorada.

Corroborando com Gabriel Salomão, a criança precisa ter liberdade para fazer sozinha aquilo que ela “pensa” ser capaz de fazer sozinha em casa, na escola, no parque, na natureza. Um ponto importante a se esclarecer é que a criança deve fazer sozinha porque tem vontade de fazer sozinha e não porque a forçamos ou porque não tem quem faça por ela. Isso seria oprimir ou abandonar a criança.

Montessori defende que a liberdade da criança se dá através da progressiva independência em relação ao adulto. O adulto, observador da criança, deve ser auxílio e não empecilho. Precisa confiar na criança. Precisa ajudá-la a fazer sozinha!

Um pouco da nossa vivência

Essa semana, a menina deu mais um passo no caminho da sua independência.

Eis aqui, a nossa vivência de querer cortar a unha sozinha.

Cortamos as unhas uma vez por semana em nossa casa. A menina é bem tranquila, às vezes, até avisa que precisa cortar as unhas, mas tem uma exceção: os dedos mínimos dos pés. Não sei o que acontece de fato, se cócegas ou algum outro tipo de incomodo, o fato é que já chegamos a ficar tempos sem cortá-las, porque a criança não me deixa encostar.

Da última vez, depois de uma tentativa frustrada de cortar as unhas dos tais dedinhos, a menina diz: Eu corto sozinha, então!

Parei por um minuto e analisei em silêncio o pedido. Levando em conta que a menina já tem uma certa habilidade com a tesoura, que esta era própria para a criança, que seria apenas as unhas de dois dedinhos e que eu estaria por perto, eu respondi: tudo bem!

Afastei-me do sofá e sentei-me à mesa ao lado para que a menina tivesse espaço e tempo, ao mesmo tempo em que eu poderia agir rápido, se necessário.

Foram cerca de seis minutos, até que as unhas estivessem cortadas, lixadas e a criança com um suspiro de satisfação, diz: Pronto mamãe, eu já terminei de cortar minhas unhas!
Seis minutos, que certamente fortaleceram a sua dignidade, sua autoconfiança, sua autonomia e sua liberdade.

Eu não fui averiguar de imediato se estavam bem cortadas, eu teria essa oportunidade em outro momento, sem que ela percebesse.

Observei quando foi oportuno, e as unhas estavam perfeitas.

A menina começou pelos dedos mínimos, e se como diz Montessori, a liberdade da criança se dá através da progressiva independência em relação ao adulto, logo mais a menina estará pronta para cortar todas elas sozinha.