Depois de estudar sobre o Adulto Preparado, nos livros, cursos e palestras, este ano decidi que ia cuidar de mim em alguns aspectos que estavam abandonados: físico, emocional, mental e espiritual. Parte do processo de autoexame e autocuidado proposto por Montessori.

Pensando primeiro na saúde, agendei algumas consultas e exames de rotina. Dessa vez, inclui o dermatologista, que eu sempre achava supérfluo. Além de algumas manchas na pele, uma coceira que vinha e sumia de tempos em tempos eram as minhas queixas. Não por coincidência, as coceiras pioravam quando eu estava mais agitada. Para minha surpresa e sorte, logo na primeira consulta, encontrei uma profissional que olhou para mim, e pôde comprovar minhas suspeitas. O meu corpo estava colocando para fora o que não estava sendo cuidado por dentro. Para o tratamento ter eficácia a médica disse que eu precisaria me comprometer em fazer duas coisas: procurar algum tipo de terapia e fazer algo que me desse prazer e que eu pudesse fazer sozinha ao menos por uma hora ao dia. Saí da consulta me questionando por que eu havia deixado chegar nesse ponto. Por quase cinco anos o meu olhar ficou direcionado somente para a criança e agora eu precisava cuidar dos meus desvios e encontrar o meu equilíbrio.

Recordei algumas passagens em que Montessori cita a importância da natureza na educação das crianças, tanto em casa quanto nas escolas. Assunto abordado com frequência nas aulas e Cursos de Gabriel Salomão, com muita sabedoria. Sabendo da importância da natureza e do trabalho na vida das crianças, sempre busquei oferecer isso a minha menina. Mesmo agora, com um horário mais estendido na escola, a depender da sua disposição e do clima, vamos à praia depois da escola. Nos dias mais quentes, vale até um banho de mar. É notável a diferença na rotina em casa nesses dias. Mesmo a criança muito cansada, é mais calma e colaborativa.

Voltando o foco para o adulto, resolvi testar esses efeitos em mim, olhando para as minhas necessidades, para o meu ambiente, para Montessori e para o que eu tenho a minha disposição. Não foi difícil pensar nas coisas que eu mais gosto de fazer: Caminhar e Escrever.

Da escola até nossa casa, são cerca de 3,2km. Pouco mais de 40 minutos de caminhada. E o melhor é que dá para fazer quase todo o trajeto à beira mar. E isso só dependia da minha vontade e disposição.
Ao sentir meus pés descalços tocarem a areia banhada pelas águas do mar, lágrimas escorreram no rosto sem que eu pudesse controlar. Eu ia à praia com frequência, sempre acompanhada da família. Mas, era a primeira vez em anos que eu me permitia ser apenas Eu, em contato com o Universo.

Lembrei-me da minha infância, do quanto eu gostava de andar descalça, de pisar na terra, na areia. Um profundo sentimento de gratidão me veio ao coração ao lembrar que minha mãe me permitia ficar descalça mesmo nos dias frios, respeitando a minha natureza.
Eu caminhei devagar, respirei, sorri e chorei durante quase todo o percurso, sentindo todas as sensações e sons que a natureza oferecia.

Fui surpreendida por um espetáculo da natureza ao me deparar como um grupo imenso de gaivotas na areia. E porque elas foram generosas comigo, pude me sentar, apreciar aquele momento e meditar um pouco ao som do mar. O vento bagunçava meus cabelos ao mesmo tempo em que varriam os pensamentos que vinham à mente. Só percebi que havia passado muito tempo quando senti o arder do Sol na pele. Ao voltar para casa, o coração já não batia acelerado e depois de terminar algumas tarefas e a rotina com a criança, ainda me sentia disposta para fazer outra coisa que me enche de paz e alegria: estudar e escrever sobre Montessori.

Começo a acreditar que trabalhar por um propósito e ir natureza todos os dias pode ser a chave para devolver o equilíbrio natural também aos adultos e um caminho para a autocura.