No capítulo 31, de O Segredo da Infância, Montessori fala sobre os Desvios no comportamento da criança. Essa não é a minha parte favorita do livro. São capítulos tristes, mas eles são importantes e precisamos falar deles, especialmente, porque ainda hoje, convivemos com esses desvios e precisamos olhar para o que estamos fazendo e como podemos ser um auxílio à vida das nossas crianças.

A desordem, a desobediência, a preguiça, a gula, o egoísmo, a agressividade, o capricho, bem como, a imaginação criativa, o gosto pelas histórias, o apego, a submissão, o brinquedo. Também a imitação, a curiosidade, a inconstância e a instabilidade da atenção, foram apontados por Montessori como desvios.
No processo de normalização, Montessori observou que muitas das características tidas como defeitos das crianças, aos poucos, cessam. Até mesmo as características infantis identificadas como qualidades ou próprias da infância, desaparecem.

É uma coisa mínima o que faz a criança desviar-se. É algo oculto e sutil que se insinua sob os atrativos do amor e do auxílio, mas que no fundo provém de uma cegueira do espírito do adulto, de um egoísmo disfarçado e inconsciente, que é realmente uma potência diabólica contra a criança. Mas, a criança renasce sempre fresca, trazendo intacto dentro de si o desígnio no qual o homem deveria desenvolver-se” (Montessori, O Segredo da Infância)

Esses desvios são causados pelo afastamento da criança da sua natureza, do seu espírito criador. A criança sem poder defender-se do adulto e do ambiente encontra-se perdida e não lhe restam muitas opções além de lutar ou fugir.

Nos capítulos que seguem, Montessori discorre sobre os tipos de desvios.

1. As fugas

Quando as ações da criança são substituídas pelas ações do adulto, o ambiente não é favorável, quando corpo e mente são impedidos de trabalhar em comunhão, a criança perde seu objetivo e vive desconectada de si, como um homem dividido. A criança vive uma vida caótica e vazia. A inteligência que deveria brotar do movimento, se dissipa e foge para a fantasia. Com a melhor das intenções, e por vezes, até com certo sacrifício, ofertamos para nossas crianças muitos brinquedos e muita fantasia. A fantasia chega a ser admirada pelo adulto, que a confunde com imaginação criativa e inteligência. Os brinquedos são descartados tão logo deixam de ser novidade. Nesse ponto, o adulto é generoso, não se enfurece e habitualmente faz da doação de tais objetos um ritual. Sem ter onde fixar a atenção, surgem os movimentos desordenados e a impermanência, comportamentos comuns nas crianças tidas também como fortes. Quando não tratadas na infância, as fugas podem se estender pela vida adulta. São as pessoas com “temperamento imaginativo”. Desordenadas e sem foco. Amam o belo, mas são incapazes de aprender técnicas, aprofundar-se e criar algo. Vivem perdidas, sempre em busca de alguém que as salve, explica Montessori.

2. As barreiras

Percebesse que as crianças com imaginação exacerbada, frequentemente, apresentam dificuldades escolares. Essa diminuição na inteligência não é tida com um desvio e chega-se a pensar que há nessas crianças um tipo de inteligência diferente, e por isso, não se prende a coisas práticas como o aprendizado da linguagem e da matemática, por exemplo. O contrário disso também pode acontecer, quando desencorajamos ou reprimimos a inteligência da criança. Ao invés de fugir para fora, isola-se em seu mundo. A barreira psíquica é um agente de defesa involuntário, sob o qual a criança não tem nenhum domínio. São tidas como pouco inteligentes, deficientes, fracas.

Falam e eu não escuto; repetem, mas eu não os ouço. Eu não posso construir o meu mundo, porque eu estou construindo uma muralha de defesa para que vocês não possam entrar” (Montessori, O Segredo da Infância)

A barreira psíquica somada a atitude severa do adulto pode ser um caminho para as repugnâncias: por uma disciplina, pelos colegas, pela escola, pela vida. Muitos de nós sentimos verdadeira aversão e até um mal estar simplesmente ao ouvir a palavra matemática. É quase impossível penetrar em uma mente bloqueada.

Sobre os desvios comentados, Montessori conta que as fugas nos brinquedos e na fantasia são mais fáceis de serem removidos. Um ambiente que ofereça a possibilidade de desenvolver uma atividade organizada e concentrada traz à criança uma disciplina espontânea. Surgem a serenidade, a satisfação e a normalidade.

As barreiras são muito mais difíceis, mesmo nas crianças bem pequenas. É o espírito que se fecha e se põe em defesa. Seus olhos não brilham, não há fascínio pelos estudos, pelas descobertas, pela música, pelo belo. Há de se proteger de todos os seus inimigos. A criança está enfraquecida demais, sem ânimo, sem vida. É preciso reacender a chama.

Quantos de nós tivemos nossas chamas apagadas na infância e ainda hoje vagamos na inércia, sem propósito, sobrevivendo um dia de cada vez?

A gente pode aproveitar esse texto e perceber quais desses desvios estão em nós e tentar cuidar deles com amor e gentileza também.