Os Desvios, nada mais são do que a defesa da criança, que impedida de usar a sua energia vital para se desenvolver e construir a si mesmo, a desperdiça lutando e se defendendo do adulto como pode. A maioria das crianças transita por esses desvios e tem comportamentos que variam entre “forte” e “fraco”. Nossa atenção deve se voltar, principalmente, para as crianças com desvios muito extremados para o forte, e ainda mais, para os fracos.

Eu vou usar Desvios em todo o texto, porque é como Montessori traz, mas se soar muito forte aos seus ouvidos, você pode pensar e usar Defesa.

Em uma palestra ministrada em um curso da AMI (Association Montessori Internationale), em 2006, a Dra. Rita Shaefer Zener, discursou sobre os Desvios da Criança e o Papel do Adulto nesse processo. O texto foi reproduzido com a devida autorização por Michael Olaf Company, de onde pego algumas referências para este texto.

Sobre os Processos dos Desvios, Dra. Shaefer Zener pondera: “Esse processo não é um grande drama. É o drama da vida cotidiana”.

Corroborando com Montessori, ela revela ainda que são muitos os tipos de Desvios, como veremos aqui.

Desvios promovidos pelos adultos:

De tão comum, são aceitos e até tidos como normais para a criança e para os adultos: o apego excessivamente afetuoso às pessoas, submissão, brincadeira, comer demais e instabilidade da atenção. Essa criança, tem uma exposição exagerada a telas ou são deixadas com seus brinquedos, que por sua vez, são rapidamente abandonados. A privação do concreto e da realidade, somada a um acúmulo de energia psíquica, se fundem e formam um mundo de ilusão, de fantasia, para onde a criança foge, a fim de alimentar o seu tédio. A criança se torna insatisfeita, precisando estar entretida o tempo todo. Amontoa-se sobre ela uma quantidade enorme de brinquedos e não se interessa pela rotina da casa. A criança que teve seus movimentos restritos, já não tem mais a vontade da independência e da autonomia. Só lhe restou entregar-se ao adulto e agarrar-se a ele, como se ela mesma não existisse. Algumas pais de compadecem e até se preenchem com esse afeto.

Desvios não promovidos pelos adultos:

Também esses são comuns: confusão, desobediência, brigas, assim como a preguiça e a timidez. Aqui nascem as barreiras da criança, como forma de defesa.

Entenda como “promovidos”, os comportamentos que são aceitos e até incentivados pelos adultos; e como “não promovidos” os comportamentos que tentamos interromper com prêmios, castigos, ameaças, punições.

Desvios como Fugas e Barreiras

Os Desvios como Fugas e Barreiras, foram comentados no texto “Os Desvios como Fugas e Barreiras” na Página de Facebook do Caminhar Montessori e, por isso, não me prolongarei aqui.

Sobre o Papel do Adulto, temos o texto “O Adulto Preparado”, da Página de Facebook do Caminhar Montessori.

No capítulo 18 de Mente Absorvente – Caráter e seus defeitos nas crianças – Montessori descreve os Desvios das crianças fortes e fracas.

Desvios das Crianças Fortes

O capricho, as explosões de raiva, a agressividade, a desobediência e o instinto destrutivo são características predominantes na criança forte. Também podem estar presentes, o sentimento de posse, a privação da concentração, os movimentos desordenados e a imaginação exacerbada. Frequentemente são barulhentas, brutas e gulosas.

Desvios das Crianças Fracas

A ociosidade, a inércia e o choro excessivo são marcas das crianças fracas. Estão sempre buscando o auxílio do adulto para realizar suas tarefas e até mesmo para a divertir-se. Amedrontam-se com quase tudo e sua insegurança faz do adulto ainda mais seu refém. Em alguns casos, pode surgir episódios de mentira e roubo. Não raro, podem sofrer falta de apetite, pesadelos e sono agitado. Esse último conjunto de características, pode debilitar sua saúde e uma anemia pode manifestar-se na criança.
Montessori encerra o capítulo 18 com uma orientação:

Qual conselho podemos dar as mães?

Fornecer às crianças trabalhos e ocupações interessantes, não as ajudar quando não haja necessidade disto e não as interromper quando tiverem iniciado um trabalho inteligente. Doçura, severidade, remédios não adiantam pois as crianças padecem de fome mental (...) Se a criança é orientada para um caminho que lhe permita construir a sua conduta e a sua vida tudo correrá bem: desaparecerão o mal-estar, sumirão os pesadelos, a digestão se fará normalmente e a gula acabará. Ela será normal porque a sua psique será normal (...) A falta de caráter, os defeitos de caráter desaparecem sem a necessidade de sermões ou de exemplos por parte dos adultos. Nem ameaças nem elogios serão necessários, mas apenas condições normais de vida (Montessori, Mente Absorvente).

Dos capítulos 35 ao 41, de O Segredo da Infância, Montessori continua apontando os Desvios psíquicos da criança, agora, um a um, isoladamente.

  • O Afeto

Falamos aqui das crianças passivas em demasia, que tiverem sua vontade e energia enfraquecidas. Se vendo impotente diante do seu opressor, desiste e se entrega. O seu sofrimento é externado através do choro excessivo. E como duvidam sempre da sua própria capacidade, tornam-se dependentes, bonzinhos até e sempre muito apegados a alguém. É comum que essas crianças perguntem excessivamente “por quê?” e sem se ater a resposta, perguntam de novo, e de novo. O fazem não para satisfazer uma curiosidade, mas para reter a atenção do adulto. Nessa relação de interdependência, o adulto se faz prisioneiro e se torna responsável por animar a criança o tempo todo, porque ela sozinha não consegue se livrar da inércia da sua vida. O adulto cede. E o espírito da criança se deprime cada vez mais. O adulto empurrou para trás o espírito da criança, substitui-se a ela, atirou sobre ela todos os seus auxílios inúteis, suas sugestões, e esgotou-a; e sequer se deu conta disso, diz Montessori.

  • A Posse

Quando a criança não encontra motivação para uma atividade concentrada em um ambiente, o que ela tem são apenas “coisas”. Porque vive uma vida vazia, ela deseja essas “coisas”, esses objetos. “Eu quero”, exige a criança forte. “Não, quem quer sou eu”, diz a outra. E assim, nasce a competição, as lutas e depois as guerras. As crianças passivas escondem, acumulam coisas sem critério, se apegam. É, portanto, um mal interior e não o objeto a causa do desejo de posse, diz Montessori.

  • O Poder

Falamos aqui do poder como desejo de apoderar-se de algo, que está associado à posse, ao domínio.
Se o adulto representa para a criança “o ser que tudo pode”, a criança desviada pensa que dominando o adulto, terá domínio sobre todas as coisas. Exibe um comportamento do “querer além dos limites”, o chamado Capricho. Montessori diz que a criança cria a fantasia de que o adulto pode realizar todas as suas vontades, como acontece no conto de fadas e chama esse evento de “romance do espírito infantil”. Por ser uma característica tida como comum da infância, o mesmo adulto que impede a criança de lavar suas mãos sozinha, se deixa levar pelo seu capricho. Em meio a desejos e concessões, surge a luta entre o adulto e a criança.

E o capricho da criança torna-se o castigo do adulto. Com efeito, o adulto subitamente se reconhece culpado e diz: “Mimei o meu filho” (Montessori, O Segredo da Infância)

A criança passiva domina o adulto com apelos emocionais. O adulto pondera, depois percebe que a criança está agora cheia de vícios e tenta remediar. Montessori vê o Capricho como o desvio mais difícil de se reverter.

  • O Complexo de Inferioridade

A criança pega um copo de vidro e o adulto a interrompe, pois teme que o copo quebre. Despeja sobre a criança sua tirania, sua avareza e seu autoritarismo. Mas, se for uma visita que deixa o copo escapar das mãos, o adulto se apressa em dizer que está tudo bem. A criança, em seu íntimo, se convence de que ela deve mesmo ser um perigo e incapaz de tocar tais objetos. É menos importante. As coisas valem mais do que ela. A criança está construindo algo e o adulto diz que precisa sair já para um passeio. E de novo, a criança tem sua ação, seu tempo e seu processo interior interrompido. Mas, se o adulto precisa terminar uma tarefa, a criança precisa saber esperar. Se precisa interromper outro adulto, o faz com gentileza. A criança sente então que vale menos que os outros também. Depois desses exemplos, Montessori conclui: nasce a inferioridade e a impotência na criança. É ainda pior quando verbalizamos a coisa: “você não pode fazer isto”, não adianta tentar, você não é capaz! Criamos um ser apático, indeciso, tímido, acovardado. Um “obstáculo interior” se forma. A psicanálise chama todo esse conjunto de “complexo de inferioridade”.

  • O Medo

O adulto receoso das ações da criança, tenta refreá-la induzindo-a ao medo de coisas fantasiosas, vagas, esperando que assim ela obedeça. As crianças mais passivas, apontadas como medrosas, tendem a revestir-se deste medo. Ainda que consideradas corajosas, as crianças mais fortes podem apresentar um “estado de medo” atípico e se mostrar pavorosas com algo comum para qualquer adulto. Um ponto comum nessas crianças, é a dependência do adulto, que por sua vez se aproveita disso.

Tudo quanto põe em contato com a realidade e permite experiências com as coisas do ambiente, ajudando a sua compreensão, afasta o estado perturbador do medo (Montessori, O Segredo da Infância).

Falamos aqui do “estado de medo” impresso na criança e não do medo como instinto natural de proteção do ser humano. As crianças, de um modo geral, são corajosas e destemidas. Não tem real noção do perigo e, por isso, podem muitas vezes se colocar em risco, em atos heroicos. Montessori observou que as crianças na Casa dei Bambini contavam com uma autorregulação que as permitia trabalhar com objetos como facas e fósforos em segurança, tendo domínio dos seus atos. Isso é possível, porque as crianças desenvolveram habilidades que lhe permitiam manusear tais objetos com prudência.

  • As Mentiras

Montessori cita as mentiras com um manto que cobre o espírito da criança e podem se apresentar de formas diversas. Uma mentira inconsciente, revelada por uma confusão mental, pode surgir depois de um trauma. Há também, a mentira fantasiosa, ditas para serem acreditadas pelos outros, como quem encena um ato teatral. A criança com um raciocínio um pouco mais desenvolvido, pode adquirir a habilidade de mentir por conveniência. Embora seja um dos fenômenos ligados a inteligência, evidenciando uma forte habilidade das funções executivas do cérebro; e a sociedade a tenha quase como indispensável, Montessori aponta a mentira como um desvio que pode ser reparado.

É necessária mais uma reconstrução que uma aversão; e a clareza das ideias, a união com a realidade, a liberdade do espírito e o interesse ativo por coisas elevadas formam o ambiente adequado a reconstituir um espírito sincero (Montessori, O Segredo da Infância).

Montessori defende que nenhum dos tipos de mentira infantil se dá por culpa da criança. Ela o faz sempre por imitação, indução, medo ou defesa do adulto.

  • Reflexos Sobre a Vida Física

Tem um “bom apetite” diz o adulto sobre a criança que come em demasia, sem ter em mente que um distúrbio pode estar por trás dessa voracidade das crianças fortes. Na natureza, o animal se limita a consumir apenas o que lhe é suficiente para garantir a sobrevivência. A gula está no Homem. Na criança, a gula se desenvolve por uma desordem em seu interior. Montessori conta que nas suas escolas, os Desvios alimentares eram logo resolvidos, uma vez que as crianças se encantavam tanto com o trabalho de graça e cortesia, que incluía desde colocar a mesa, até ajudar um colega menor, que comer se tornava a parte menos interessante da coisa. Um outro extremo, se dá quando a criança tem verdadeira aversão a comer e rejeita os alimentos oferecidos, levando a criança fraca a um abatimento físico, ainda que essa criança não apresente nenhuma anormalidade digestiva do ponto de vista clínico. A recusa é uma barreira, uma defesa da criança ao adulto opressor que lhe obriga a comer a qualquer custo, sem respeitar seu corpo, seu ritmo e suas leis.

As fugas na doença não são simulações, mas apresentam sintomas reais, alterações febris da temperatura, e verdadeiros distúrbios funcionais que, às vezes, assumem aparência grave. E portanto são enfermidades inexistentes, ligadas no subconsciente a fatos psíquicos que conseguem dominar as leis fisiológicas. (Montessori, O Segredo da Infância)

Na criança normalizada ou equilibrada, esses Desvios tendem a desaparecer, tão logo a criança desenvolva a concentração por meio do trabalho.

A cada capítulo que eu lia sobre os Desvios, eu precisava parar e respirar. E enquanto eu respirava, eu fazia um autoexame. E neste autoexame, reconheci em mim, muitos destes Desvios. Alguns foram presentes na minha infância e, de alguma forma, corrigidos pelo caminho. Outros permaneceram ainda na vida adulta.

Como de costume, deixo o convite para uma reflexão.

Antes de observar a criança e seus desvios, vamos observar a nós mesmos. Veja se reconhece alguns desses comportamentos em você, adulto. Quais deles fizeram parte da sua infância? Qual deles ainda permanece em você? Qual deles precisa ser cuidado?