Era domingo, o Fantástico apresentava uma reportagem de um quarto de criança com um colchão no chão. Duas palavras me impactaram: liberdade e autonomia. Gravei isto. Eu devia ter por volta de vinte anos, solteira e onde eu morava não havia chegado o sinal da internet ainda.

Tempos depois, aos trinta e cinco anos, acabara de me formar em Administração, meu TCC sobre Empreendedorismo havia virado palestra na Faculdade e eu estava a pleno vapor, apesar da idade. Na época, eu tinha dois grandes sonhos: ingressar em um programa de MBA na FGV e ser mãe. Como não tinha muito tempo a perder, me desafiei a realizar os dois ao mesmo tempo. Ainda na entrevista, a coordenadora disse que meu marido poderia me acompanhar depois que a bebê nascesse, para que eu pudesse amamentá-la. Aceitei de pronto, afinal, eu só ia ter um bebê e logo iria retomar todas as minhas atividades. Eu tinha descoberto o gosto pela pesquisa, pelos estudos, e agora que eu tinha essa oportunidade eu não queria abrir mão dela.

Passei a gestação inteira na companhia de apostilas e uma calculadora HP. Achei incrível quando cheguei para fazer a última prova do semestre e haviam deixado uma garrafa de água e uma cadeira extra para eu esticar as pernas se quisesse, e era a única que tinha permissão para sair da sala se precisasse ir ao banheiro. Eu estava com trinta e quatro semanas e muito, muito inchada. Me despedi dos colegas com um até logo, nos vemos depois das férias!

As pessoas me cercavam sempre das mesmas perguntas: o sexo do bebê, o enxoval e a decoração do quarto. E eu fui, tradicionalmente, seguindo nesse passo. O resto, pelo que me contavam, eu saberia resolver pelo instinto materno.

A primeira coisa que me veio à cabeça ao pensar na decoração do quarto da bebê foi aquela reportagem do Fantástico. Pesquiso por “quarto criança colchão chão”. Era tudo o que eu lembrava. Descobri que chamavam isso de “quarto montessoriano”. Agora havia umas camas bonitas, que pareciam uma casinha, mas aquela não era minha ideia. Fazia parte do quarto também, espelho, barra, armário baixinho. Para mim era esse conjunto de coisas que fazia a criança ter liberdade e autonomia, as duas palavras que me impactaram tanto.

Morávamos de aluguel em uma casa muito antiga, cheia de umidade e toda a cadeia de insetos. Havíamos acabado de comprar um apartamento na planta, com previsão de entrega para o ano seguinte. A criança nasceria ainda na casa velha, no final do inverno. Não seria possível colocar as barras porque a parede esfarelava toda vez que a gente tentava colocar um prego. E eu pensava ainda mais nos insetos.

Acabamos ganhando berço, cômoda e uma cadeira de amamentação. Eram móveis lindos, estilo provençal e convencida de que eu precisava pensar primeiro na segurança e na saúde do bebê, abandonei a tal ideia naquele momento.

Descobri um aplicativo que permitia acompanhar a evolução do bebê na barriga e as fases de desenvolvimento depois que nascesse. E era por isso que eu me baseava, além, claro, dos palpites da família, amigos e todo o entorno. Livros sobre bebê, educação de filhos, eu nem sabia que existia.

A criança nasceu no meio das férias, prematura, com trinta e cinco semanas. O chá de bebê havia sido dois dias antes e nem a mala da maternidade eu tinha pronta. Eu tinha um enxoval bem enxuto, ainda bem. Tão logo saímos do hospital, tive de ir em busca de roupas com fôrma menor, porque nada do que tinha comprado ou ganhado servia na minha bebê. Foi quando descobri que havia roupas no tamanho PP – para bebês prematuros.

Embora meu parto tenha sido cheio de violência obstétrica (me dei conta disso tempos depois) e até hoje não tenha entendido o porquê de ter sido feito um parto a Forceps, a criança nasceu uma prematura grande, não precisou de UTI neonatal e fomos para casa depois de cinco dias. Tivemos muitas complicações no começo. Perda de peso, hipoglicemia, icterícia e dificuldades com a amamentação foram alguns deles.

O marido trabalhava em São Paulo, usava fretado para retornar ao Litoral todos os dias e suas férias estavam agendadas para o mês seguinte. Nós não contávamos com a chegada antecipada da criança. A empresa do marido permitiu que ele trabalhasse de casa por mais alguns dias e esse foi o período em que eu tive alguma ajuda.

Depois de uma semana, retornamos ao hospital para a consulta de rotina e a criança continuava perdendo peso, mesmo tomando fórmula. Conto à pediatra como era difícil fazê-la acordar para mamar. A criança dormia muitas horas seguidas, como se ainda estivesse na barriga. A pediatra diz que precisávamos ficar atentos, pois poderia ser o indício de um problema neurológico. Eu comecei a chorar ali mesmo. Ao chegar em casa, recebo uma ligação da FGV perguntando sobre o meu retorno ao MBA. Eu respondi, cancela. O atendente ressalta: senhora, para cancelar terá de pagar uma multa… e o resto eu nem me lembro. Passei o telefone para o marido e disse: por favor, resolva isto.

Com o marido de férias, procuramos outra pediatra, que descartou a possibilidade de qualquer problema neurológico na criança. Mas, ela precisava mesmo ganhar peso. Fui orientada a amamentar nos métodos arcaicos. Um seio por vinte minutos, depois o outro por mais vinte minutos e se continuar com fome dê a fórmula. Um irmão enfermeiro, com especialização em neonatal, foi quem me ajudou com a amamentação e me indicou que procurasse um banco de leite para ajuda especializada. Foi a primeira vez que tive alguma informação valiosa sobre a maternidade: a amamentação em livre demanda. Foram dois meses levantando de hora em hora até que a criança chegasse ao peso ideal. Era meu sonho amamentar e eu decidi comprar essa batalha. E deu tão certo, que a amamentação se estendeu por mais três anos.

Com este cenário, eu não conseguia mesmo imaginar minha criança dormindo em um colchão no chão. Cheguei a pensar em cama compartilhada, mas minha mãe me apavorava com a história de uma amiga que perdeu um bebê sufocado. Por dois meses, a criança dormiu dentro de uma banheira ao lado da minha cama, como faziam no hospital. Depois passou a dormir em um carrinho e só aos quatro meses eu tive coragem de colocá-la para dormir no berço. Vencemos a batalha do peso e a cada consulta a pediatra me tranquiliza em relação ao desenvolvimento da criança.

Havíamos nos planejado para que eu pudesse ficar em casa nos dois primeiros anos, mas para conseguir isso e ainda arcar com o investimento no apartamento novo, precisávamos mesmo economizar. O marido levava marmita e só depois de algum tempo conseguimos ter a ajuda de uma diarista uma vez por semana.

Tirando o período de férias do marido e as visitas que vinham de final de semana, era mesmo eu e a criança sozinhas em casa o tempo todo. As saídas para a criança tomar o sol da manhã e as idas ao mercado e farmácia eram os momentos em que eu via gente diferente do marido e da cria. Eu rezava para a Serra estar tranquila, não ter comboio e o marido chegar antes das vinte horas. A rotina com a bebê, a casa, dois gatos e um cachorro, era bem cansativa.

Estive em uma das melhores instituições de ensino, aprendi muito sobre negócios e cálculos avançados, mas nada daquilo podia me ajudar naquele momento. Eu não sabia o que era violência obstétrica, puerpério, autoconhecimento, primeira infância. Contudo, os conselhos que eu recebia de deixar chorar e colocar na frente da TV não faziam nenhum sentido para mim. Confesso, que por desespero, eu tentei fazer isso por uma ou duas vezes. Não funcionou. Aquilo me martirizava. Abandonei a TV. Não conseguia deixar chorar.

Daí veio uma sugestão que era unânime: comprar um cercadinho: Eles adoram! Ela vai ficar quietinha e você vai conseguir fazer as coisas – me diziam as pessoas com experiência em criar filhos – Eu comprei. Colocava uns brinquedinhos e conseguia manter a criança presa nele pelo tempo de lavar e enxaguar a louça correndo. Não mais que isso. A criança odiava aquilo e eu também para ser franca.

De novo, aquelas palavrinhas me vinham à cabeça: liberdade e autonomia. Troquei o cercadinho por um edredom no chão. Lembrei de uma foto que havia visto com tapetes de EVA e um espelho de acrílico. A ideia parecia boa, barata e decidi colocar em prática. Para mim, estava tudo certo. A criança parecia gostar mais daquilo.

Fazer pesquisas com uma bebê ao seio, em pleno puerpério, sem rede de apoio, não era o cenário perfeito. Quase sempre eu estava distraída, tinha pressa ou era interrompida por um choro.

A criança tinha por volta de nove meses quando nos entregaram as chaves da casa nova. Mesma época em que o marido aceitou o convite para trabalhar em outra empresa, agora, home office.

Era um momento de alegria, de conquista, mas também de muita correria e estresse com mão de obra. Nesse período, foi inevitável, a criança passou mesmo muito tempo no carrinho ou no colo, indo de um lado para o outro até que finalmente mudamos para a casa nova, semanas antes de completar seu primeiro ano de vida.

O quarto da criança agora era todo novinho, com uma vista linda do mar ao longe. Nesse momento eu podia retomar a ideia do “quarto montessoriano”.  Comecei por uma estante baixa, dois caixotes de madeira para guardar brinquedos, prateleiras para livros e aproveitei o espelho de acrílico que já tínhamos. Fui a uma casa especializada e comprei mais tapetes de EVA para cobrir o quarto todo, agora placas bem grandes, nas cores rosa e roxo, como eu havia visto em algumas fotos na internet. A ideia era que a criança pudesse mesmo explorar o ambiente, mas sem ficar no chão gelado e duro. É, eu não entendia muito sobre ambiente preparado ainda.

Mantivemos o berço no quarto novo até a chegada do verão, a criança estava com um ano e quatro meses. Descobri recentemente que está tudo bem a criança ainda estar no berço com essa idade. Não chega a ser um pecado mortal em Montessori.

O apartamento novo era mais fácil de cuidar e eu tinha um pouco mais de ajuda. Logo que mudamos, encontrei uma academia que tinha natação baby e fiz nossa matrícula. Além de momentos de conexão e vínculo, agora eu tinha um pouco mais de companhia e outras mães para conversas e trocas. Nos sentíamos acolhidas naquele ambiente.

Todos os dias, com exceção dos chuvosos, saíamos para um passeio. Podia ser uma volta no quarteirão, uma caminhada até a praia. Andava sem pressa, permitindo que a criança observasse tudo, quase sempre… do carrinho. A libertava no jardim, na areia da praia e sempre que percebesse que ela queria muito observar algo.

Em casa, os momentos na cozinha para mim eram os mais insanos. Eu era a louca que precisava ter cinco cores no prato, legumes sempre cozidos no vapor e não repetia os mesmos alimentos do almoço no jantar. Alimento congelado, mesmo que fosse uma sopa feita em casa, nunca. Eu gostava de tudo muito fresco, então, eu ia ao mercado quase todos os dias. Para manter todo esse padrão de qualidade, eu passava mesmo muito tempo na cozinha. Perdemos algumas panelas queimadas nesse período, porque eu esquecia enquanto tentava distrair a criança ou precisava trocar uma fralda. O pior era ter que cozinhar tudo de novo. Sobrava choro e faltava paciência, para mim e para a criança.

Nessa época, nosso cão que já era muito velhinho começou a adoecer e definhar lentamente. Começou com displasia, incontinência urinária e as idas ao veterinário eram constantes. O marido tentava dar conta do trabalho, do cachorro e da feira. E eu da criança e da rotina com a casa. A cada quinze dias, o marido precisava ir a sede da empresa em São Paulo e eu tinha que dar conta de trocar as fraldas da criança, do cachorro e de todo o resto sozinha.

O cenário era perfeito para um surto e tinha dias que eu queria mesmo fugir para as montanhas. Havia muitas feridas por trás daquela adulta difícil e a maternidade estava trazendo todas elas à tona, eu só não havia descoberto nada sobre isso ainda.

Depois que a criança adormecia eu adiantava os afazeres em uma tentativa de fazer o dia seguinte ser mais leve e ter mais tempo para dar atenção a criança. No dia seguinte eu estava ainda mais cansada. Em uma ocasião, fui para a internet e pesquisei: “como cuidar da casa com uma criança sem enlouquecer”, tamanho era o meu esgotamento. E pelo que vi, eu não era a única mãe nessa situação. Apareciam umas coisas bem bizarras e algumas ideias de atividades sensoriais que me pareciam interessantes e de novo esbarro em Montessori (embora, tenha descoberto depois que algumas atividades não eram tão montessorianas assim). Não era o tradicional, não prendia a criança e ela se distraia. Ótimo, vou por este caminho.

Quando a criança tinha por volta de um ano e dez meses, vi o anuncio de um curso sobre Montessori em casa, em uma plataforma nova para pais e estavam com preços promocionais para os primeiros acessos. Conversei com o marido e decidimos investir. Agora eu descobria Maria Montessori, médica e pedagoga. Era um método de ensino, mas havia atividades de Vida Prática que podiam ser aplicadas em casa. Entendi que a liberdade e autonomia da criança envolvia a casa toda, não só o quarto. O conteúdo era intenso e eu precisava de tempo para assistir aos vídeos que eram bem longos. Com um fone de ouvido, seguia o curso entre uma tarefa e outra sempre que a criança dormia.

Algumas coisas fui aplicando de imediato, outras mais lentamente. Mas, em pouco tempo, a criança, erguida por uma cadeira para alcançar a pia, lavava louça pela primeira vez. Algumas atividades frustravam bastante a criança. Tempos depois, aprendi que era preciso um preparo maior do adulto e do ambiente antes de oferecer uma atividade à criança. Observar a criança, suas habilidades, interesses e deixar que ela se guiasse em seu processo interior era a parte mais importante. O curso não deixava isso muito claro. Ainda assim, tivemos alguns avanços. Os dias difíceis continuaram existindo, mas eram mais espaçados. Doamos o carrinho e passamos a caminhar mais com a criança a pé mesmo.  Explorávamos ao máximo a natureza, os parques, além  da natação duas vezes na semana.

Na mesma plataforma, havia uma moça que falava algo sobre Disciplina Positiva e Comunicação-não-violenta. A base do trabalho dela é Jane Nelsen, Brené Browm e Marshall Rosemberg. Dava dicas de como educar sem violência , sobre aceitação e vulnerabilidade. Foi aqui que eu comecei a entender um pouco sobre autoconhecimento. Comecei a ler esses autores e a cuidar mais disso. Entender que tudo bem não ter cinco cores no prato em um dia turbulento trouxe mais equilíbrio para os meus dias.

Nós sempre tivemos uma rotina estruturada, mas a cada salto de desenvolvimento, as coisas mudavam um pouco e aos dois anos e sete meses a criança passou a não querer a soneca da tarde em alguns dias.

Com o novo cenário, para além dos passeios diários, eu precisava de mais ideias de atividades para fazer com a criança em casa. Buscando por mais conteúdo, cheguei a um grupo de Facebook que auxilia famílias que querem saber mais sobre Montessori e a um blog onde um rapaz escrevia para famílias.

Chorava lendo os textos de Gabriel Salomão. Chorava porque são textos lindos e inspiradores, mas também por uma culpa que não cabia dentro de mim. Como uma pessoa esclarecida podia ter perdido tempo com pesquisas tão rasas e ignorar tanto sobre a infância? Como cursos de maternidade, família e toda a Sociedade não me contaram sobre formas respeitosas de educar? Assim como eu, as pessoas ao meu redor, ignoravam tudo isso. É um problema social. Até mesmo o conteúdo pago da escola de pais havia me induzido a erros.

A criança parecia crescer em uma velocidade que os estudos não conseguiam acompanhar, mas eu tinha, finalmente, um caminho e uma referência mais segura a seguir. No Grupo Montessori para Famílias conheci Soraia, uma pessoa com um grande coração, sempre disposta a ajudar. Havia encontrado um pouco de paz no meu maternar. A paz de Montessori! Agora, eu achava que sabia um tanto e até compartilhava vídeos e fotos das atividades da minha filha em casa, fazia um sucesso enorme e eu tinha um orgulho danado deles.

Isso foi antes de participar de uma Oficina Montessori dentro de uma escola. Assistir, ao vivo, uma guia fazer a demonstração de materiais e falar sobre o currículo abriu mesmo a minha mente. Eu começava a desvendar alguns mitos e fazer algumas descobertas importantes sobre o Sistema Montessori, o porquê de cada material e um pouco mais sobre a filosofia montessoriana.

Eu me culpava muito por tudo isso e só com o tempo aprendi que meus erros faziam parte do meu processo, que eu precisava aceitar e respeitar a minha história, assim como aprendi a respeitar o tempo da criança. Só depois da aceitação, me veio à consciência que a responsabilidade e o compromisso em estudar era a forma mais assertiva de romper o ciclo da educação tradicional que recebi e que me levariam para um caminho de evolução e transformação.

Com a criança mais crescida e independente, e o apoio do marido, consegui chegar aos cursos presenciais de Gabriel Salomão. Quase todos os textos iniciais de Caminhar Montessori, são inspirados e dedicados a esses encontros.

Aprendi muito com todas essas pessoas, mas chegar às obras de Montessori foi a parte mais importante e reveladora de todas, sem dúvida. Como eu queria poder voltar no tempo! Como gostaria de ter tido acesso a essas informações antes! Mais uma vez eu estava a reaprender Montessori. Não consegui parar mais. Desde então, foram muitos livros lidos, muitos cursos feitos. Descobrir verdades é libertador. Conhecer e estudar profundamente Montessori é um caminho sem volta. Eu não sabia ainda, mas quando as palavras “liberdade e autonomia” tocaram o meu coração naquela reportagem do Fantástico, era porque elas já faziam parte da minha essência.

O caminho que eu encontrei para contribuir com Montessori, cumprir a minha missão como mãe e meu propósito como ser humano, foi me dedicar a escrever para famílias, dividindo as experiências, vulnerabilidades e descobertas que fazem parte desse processo.

Meu compromisso, é trazer informação de qualidade, sempre com critério e responsabilidade, tendo como base os livros de Maria Montessori ou artigos científicos, porque eu sei o quanto é desesperador se deparar com tanto conteúdo na internet, ficar perdida no caminho e ter de trocar a roda com o carro andando. No caso das mães, trocar as fraldas, mesmo.

Esse Caminhar ainda é longo! Tem muita história para contar aqui sobre Montessori, maternidade, sobre como é importante romper ciclos e até perdoar pessoas para ser um adulto preparado. Vem comigo!