No capítulo 4 de O Segredo da Infância – O recém-nascido: O ambiente sobrenatural – Montessori nos convida a refletir sobre o modo de vida que vivemos na contemporaneidade: concretado, alto, sobrenatural.

A preocupação de Montessori na verdade é sobre como a civilização, a sociedade, as famílias e os pais se preparam para a chegada do recém-nascido, estando tão afastados da natureza e de instintos importantes para a preservação da nossa espécie.

Montessori se mostra indignada ao falar dos minuciosos cuidados dispensados a mãe, enquanto o adulto despreparado vai ao encontro do recém-nascido, sem levar em conta o sofrimento gerado pela transformação abrupta pelo qual acabou de passar. O que chamamos de nascimento, representa para este novo ser, seu primeiro trauma, sua primeira luta. A luta pela vida!

É preciso preparar-se para saber se aproximar desse ser delicado, diz Montessori (Montessori, O Segredo da Infância, p. 34). Montessori aqui vai além dos pais, está falando dos médicos, dos enfermeiros, das babás.

A criança nem bem acabou de nascer, surge alguém que a pega no colo, lava-a, veste-a, a expõe à luz para poder ver melhor a cor de seus olhos, tratando-a sempre como se fosse uma coisa e não como um ser animado. Não é mais a natureza que guia, mas o raciocínio humano, e este é ilusório porque não é iluminado pela compreensão, não está habituado a considerar que a criança seja dotada de psique (Montessori, Mente Absorvente, p. 83)

Montessori defende que, no primeiro mês de vida o recém-nascido sequer precisa de vestimentas, devendo ser aquecida pelo ambiente e pelo contato pele a pele com sua genitora, como fazem os animais na natureza.

Montessori reconhece todos os avanços da medicina à sua época, no entanto, reclama: a criança não é compreendida dignamente em parte alguma do mundo (Montessori, O Segredo da Infância, p. 35)

Voltando o foco para os adultos mais próximos da criança, Montessori nos atenta sobre o fato de que, mesmo amando profundamente, nos colocamos em situação de defesa, e até avareza contra a criança e protegemos tudo o que podemos dela. O adulto defende a si e ao ambiente da criança, que não pode tocar, sujar, incomodar.

Os cuidados com a criança, ressalta Montessori, devem ir além da higiene do corpo e do ambiente, é preciso tratar a mente da criança, lhe oferecer um ambiente favorável e lhe apresentar o mundo.

'Para isso é ainda necessário realizar experiências nas clínicas e uma divulgação junto às famílias, para que a atitude para com o recém-nascido possa mudar' (Montessori, O Segredo da Infância, p. 36)

As famílias mais abastadas, que enchem de luxo o berço e as vestimentas do recém-nascido, sequer percebem que não estão levando em conta a mente e os sentimentos da criança.

Para além do cuidado com a higiene, para Montessori o melhor que se pode oferecer a um recém-nascido, seria

“Um lugar protegido do barulho da cidade, onde existisse um silêncio suficiente e fosse possível moderar e corrigir a iluminação. A temperatura morna e constante, como já há algum tempo existe nas salas de operações, deveria ser a preparação para se receber a criança nua” (Montessori, O Segredo da Infância, p. 36)

Assim como usam técnicas especiais para transportar enfermos de um leito ao outro, de forma que o corpo sofra o menor impacto possível, também os recém-nascidos devem ser considerados. Quando se inicia o processo do parto, mão e bebê enfrentam risco de morte. Há de se considerar as necessidades de quem terá de o árduo trabalho de adaptar corpo e mente ao mundo novo. Há de se venerar este milagre da criação.

Montessori compartilha uma passagem em que presenciou um recém-nascido esboçar sua primeira reação de medo , ao se ver imerso na água pela primeira vez: o menino escancarou os olhos, e teve um sobressalto, esticando as pernas e os braços como quem se sente cair (Montessori, O Segredo da Infância, p. 37)

Ao tocar o corpo de um recém-nascido, devemos antes purificar nossas mãos, ter gestos cuidados, zelo e adoração.

Montessori faz um paralelo entre os cuidados dispensados a mãe e o tratamento dado ao recém-nascido para colocar mais claramente tamanha incoerência.

“A mãe é deixada imóvel, enquanto a criança é levada para longe dela, a fim de não a incomodar com sua presença, e é trazida para perto apenas nas horas em que deve ser alimentada. A criança, nessas viagens é manipulada e perturbada para vestir belas roupas enfeitadas com fitas e rendas. Isso equivaleria a obrigar a mãe a levantar-se logo após o parto e trajar-se com elegância para comparecer a uma recepção” (Montessori, O Segredo da Infância, p. 38)

É sabido que os transtornos sofridos desde o período embrionário trazem sequelas, por vezes irreversíveis, ao longo da vida.

Montessori encerra o capítulo com a constatação de que o período do nascimento não é levado em consideração, porque o recém-nascido não é ainda tido como humano, como pessoa.

Se faz necessário ainda hoje, que aprendamos a receber com devoção, aquele a quem confiaremos a missão da continuidade, do progresso e da evolução da humanidade: o recém-nascido.


 

Tanto tempo depois de Montessori trazer essas indagações, ainda somos submetidas à violência obstétrica e os recém-nascidos ainda não tem sua dignidade respeitada nas maternidades.

Temos exceções, temos os partos humanizados, se você tiver acesso a informação e dinheiro para pagar doulas e uma equipe especializada, claro. São pouquíssimos os municípios que atendem seguindo esses critérios. Mesmo nas redes particulares, o que vemos são equipes desumanizadas e desatualizadas.

E como Montessori reclama, como pais, agravamos ainda mais esse momento, nos preocupando mais com enxoval do que com o bem-estar de que vem ao mundo sem nada e queremos encher de luxos, que se tornam obstáculos ao seu desenvolvimento físico, psíquico e emocional.

Precisamos nos fazer ouvir, levar Montessori para as maternidades, para obstetras e pediatras. Ainda hoje, isso é urgente e necessário!

Ao refletir sobre isso, me veio à mente, que seu pudesse voltar no tempo e conversar comigo mesma, me daria alguns conselhos importantes.

Se eu pudesse me sentar ao lado da gestante que eu fui e essa me permitisse dividir algumas experiências, eu lhe falaria sobre a importância de se estudar sobre a infância, sobre puerpério, violência obstétrica e autoconhecimento.

Eu lhe diria que cuidasse das suas feridas internas, que acolhesse suas dores e fosse mais empática e paciente consigo, com seus erros e com o seu processo. Só assim, ela seria capaz de acolher o choro da sua menina sem julgamentos.

Respire, medite, tome banhos demorados, peça massagem nos pés, saboreie com presença um bom café, agora e sempre que puder, mesmo depois da chegada do bebê.

Ocupe-se em preparar um ambiente confortável para a dupla mamãe-bebê. Esse lugar precisa de baixa luminosidade, uma temperatura próxima ao do corpo. Silencioso. Respeitoso. Um quarto pensado para o bebê e não para quem vai visitá-lo de vez em quando.

É certo que bebês precisam de fraldas, muitas delas. E você pode escolher se descartável ou de pano.

Roupas, eu diria que nem tanto. Deixe para comprar aos poucos. Não se sabe se o bebê saíra mais cumprido, mais gordinho, ou ainda, prematuro. Roupas de bebê são sempre lindas, mas se pensarmos que, o agora recém-nascido, passou meses sem elas, melhor mesmo que sejam leves e confortáveis. De preferência, que possam ficar sem elas por longos períodos, num contato mais pele a pele, principalmente, quando se vai o seio para ser amamentado ou em uma crise de cólica.

Pense desde já quem fará parte da sua rede de apoio. Nem sempre se pode contar com a família, às vezes, essa rede é criada pelo companheiro, uma diarista, uma vizinha ou amiga. Não dispense ajuda, mas deixe claro que você precisa de ajuda com o almoço, com a casa, com a roupa. Pode precisar de um bolo, um café quentinho ou apenas de companhia. Tudo isso ajudará você ter mais tempo para cuidar do bebê e de você com mais paciência e ternura.

Tudo é perfeito dentro do ventre: o silêncio, o som que vem do pulsar do coração, a iluminação, a temperatura, o balanço de quando a mamãe se movimenta.

Nascer é um processo doloroso, é quase um milagre como passamos por tamanha transformação com vida.

As mamães mamíferas na natureza se afastam e protegem sua cria até que abram os olhos e possam se manter de pé por si mesmos e depois retornam para que possam aprender como vive sua espécie. Se afaste e proteja sua cria. Dê tempo para que se acostume e explique, bem devagar e com paciência, como funciona o mundo.

Você pode não saber decifrar todos os choros e pode ser que não ame seu bebê imediatamente. E está tudo bem. Você não está com depressão pós-parto, nem é louca. Só está vivendo a maternidade como ela é, sem a versão romantizada. E pode ser que você morra mesmo de amores desde o primeiro instante.

De todo o modo, o que importa é que vocês se conectem, criem vínculos fortes, mesmo nos dias mais desafiadores.

Existem muitas formas de educar sua criança, escolha a mais respeitosa, que acolha você e sua criança. E eu não conheço ferramenta melhor que Montessori.


E seu parto como foi?

Você e sua criança foram respeitados na maternidade?

Se não foi, já deixo aqui meu abraço!