Quando me apresentaram o trabalho da professora Adriane Lessa, fiquei muito curiosa para conhecê-la, queria muito saber mais sobre a sua trajetória, suas vivências. Sabia que só podia ser uma história das boas. Tivemos uma conversa e Adriane me mandou algumas fotos. Que fotos! Que trabalho maravilhoso e inspirador! Que pessoa encantadora!

Se eu tinha alguma dúvida de que era possível levar Montessori para uma sala convencional, agora não tenho mais.

É preciso trabalhar duro, estudar muito, tirar dinheiro do bolso para comprar e produzir materiais muitas vezes, mas é possível. É possível!

Leiam sua história, apreciem algumas fotos. Conheça, e se puder, apoie o trabalho dessa professora.

Teremos Live com Adriane? Conto já em outro post!


Adriane nos traz um texto inspirador, onde compartilha um pouco da sua vivência com Montessori e algumas reflexões. 

Me chamo Adriane Lessa,

Sou professora de classe há vinte e cinco anos na rede pública de Capão da Canoa, litoral norte do Rio Grande do Sul…

Em 2009, quando atuava na vice-direção de uma escola de Educação Infantil, no turno da manhã, junto com Giselle Frufrek, Montessori veio até nós. Fomos apresentadas por Carla Ramires, proprietária da Casa Escola Montessoriana Estrelinha do Mar e integrante da comissão científica da OMB, que na época ofereceu seu trabalho voluntário “Projeto Beija-flor” com atendimento psicopedagógico e psicológico, às crianças e famílias da escola.

Nos dias de atendimento, Carla preparava o pequeno ambiente já mobiliado e adaptado. Não era uma sala Montessori se considerarmos todo o enxoval necessário, mas com sua habilidade construiu um espaço com inspiração Montessoriana, com essência.

Então, eu assistia àquela dança das crianças chamada “trabalho”. Ali havia atividade, alegria …paz! Era uma mostra da saúde humana nas relações de liberdade, respeito e dignidade.

Um misto de raiva, revolta e gratidão se misturavam em mim. Eu havia sido privada desse conhecimento enquanto criança e enquanto estudante graduada. Mas agora, ele estava ali diante dos meus olhos.

Começaram as leituras das obras Montessori e oficinas de formação Montessoriana para toda a equipe de professores. Queríamos aprender e apoiar os professores que estivessem abertos à proposta.

Construímos juntos, com professores e pais, um espaço de berçário que atendia 35 (trinta e cinco) crianças, uma agrupada de 3 a 5 anos e fizemos a adaptação do refeitório para a autonomia da criança. Esse trabalho inovador em escola pública nos levou a apresentá-lo no Congresso Internacional IDEA, em Belém do Pará. E em 2010 fomos convidadas para apresentação no Fórum Social Mundial em Senegal, Dacar.

Nesse período surgiram movimentos de resistência, mesmo sendo a proposta de livre adesão. Muitos professores sentiam-se contrariados pela desacomodarão gerada internamente e em relação ao contexto.

Com o final da gestão em 2012 e a nossa saída da direção, a proposta se desfez e o quadro de professores teve significativa mudança. Mas a grande surpresa foi saber que muitos dos professores se apropriaram da sua busca para uma continuada formação e que levaram essa inspiração Montessori para outras escolas e municípios. Descobri, tempos depois, que professores que demonstravam resistência e declaravam sua insatisfação com o método, acabaram por tornarem-se diretores e que seguidamente buscavam formação com base montessoriana para sua equipe porque encontraram no método Montessori um “jeito” de atender às necessidades das crianças.

Desde meados de 2009, eu não era mais a mesma professora de antes, mas a nova ainda não havia se revelado, era um tempo de transição nebulosa. Montessori havia descortinado as crianças e eu as enxergava com tamanha dignidade que me sentia muito despreparada para estar com elas. Meu ponto de vista foi afastado repentinamente e muito rapidamente. Eu podia ver com muito mais dimensão, mas não havia foco e eu precisava, agora vivendo o processo, ajustar a visão para os detalhes.

Em julho de 2010 transferi meu filho João Manoel para a Casa Escola Montessoriana Estrelinha do Mar. Foram apenas seis meses, contudo provocaram um impacto tão grande no seu desenvolvimento e no seu processo de construção da personalidade, que hoje já com 14 anos, continuo a me surpreender com sua capacidade de autonomia e de agente da sua própria história de vida.

Nesse mesmo ano passei as férias de inverno produzindo material, com ajuda do meu companheiro Diego Rodriguez, e organizando o espaço da sala de aula da melhor forma possível.   Ao retornarem as crianças em agosto, iniciei essa nova proposta com a mesma classe de seis anos no Ensino Fundamental que atendia no turno da tarde.

Na linha, apresentei o novo ambiente para as crianças, o uso do tapete, os combinados. Eu não sabia como, mas acreditava que elas me indicariam a melhor forma de proceder!

O medo era sempre uma sombra companheira, considerava os Princípios Montessorianos um norte complexo, porém, ia navegando tendo-os como guia enquanto estudava os materiais, criando adaptações viáveis e sempre buscando o rigor da estética e do conceito. Lembro que foi ali que conheci a experiência mais constante de “presença”. Tudo era tão novo em cada dia com as crianças, era preciso aprender a observar. Era preciso estar.

Em 2011 conheci Phill Gang e Marcha Morgan através de Bebeth Fassa, num encontro em Porto Alegre. Phill Gang vinha de Nova Zelândia para um Congresso Internacional Montessoriano como principal palestrante. O evento aconteceria em Florianópolis SC.

Nesses dias que precederam o seu trabalho, eles passaram por Capão da Canoa e visitaram o espaço em que eu trabalhava com as crianças. Lembro de estar muito nervosa e envergonhada pelas condições ainda serem tão primárias. Marcha chorava ao se despedir.

No congresso tive acesso a divulgação da Pós-Graduação com a professora Talita Almeida. Era a oportunidade de conhecer o Método Montessori com mais técnica e profundidade.

Naqueles dias de estudo e nos dias que se seguiram à distância, fui transitando de um extremo ao outro nos mais diversos sentimentos. O programa era muito grande, havia muito para aprender. E tudo era tão importante!

Talita foi rigorosa e profundamente amorosa para trazer à luz Montessori. Uma mestra que sabe ouvir de um jeito que até então eu desconhecia como possível. Ouvir com o corpo e mente, em silêncio.

Essa experiência impulsionou uma nova mudança que foi sendo colocada em ação no dia a dia com as crianças.

Acredito hoje, que ter acesso a Montessori permite ao adulto ver-se revelar em potencial e consciência. É perceber a criança e a si próprio. É lidar com o ego com mais clareza e nem por isso com menos dor. É aprender a agir sem antes reagir e ver a criança que com sua generosidade e amor se coloca vulnerável na relação com o adulto, para ambos aprenderem juntos.

No ano de 2017 estive em Lima, no Peru. Queria conhecer mais de perto a abordagem Reggio Emilia. “Ciscar fora da caixa”, como diz Marcia Righetti.

Em 2018 Carla Ramires e Bebeth Fassa concluíram a primeira formação de Pós-Graduação em Montessori – 3 a 6 anos, em Capão da Canoa. Maioria desses professores eram da escola pública e financiaram seus estudos com recursos próprios.

Duas dessas professoras, Gisele Almeida e Aline Zacca atuam na minha escola e com apoio da direção, construíram outra sala com proposta montessoriana para atenderem às crianças de cinco anos, em duas turmas.

É preciso considerar o quão desafiador é construir um ambiente de cura e aprendizagem para as crianças que refletem o homem da sociedade atual. A autodisciplina do professor, dedicação pelo controle e domínio sobre o material de desenvolvimento humano e o paradoxo com a vivência em estado de vulnerabilidade para aprender a ler os sinais das crianças, exigem uma mudança de paradigma.

Sinto que é preciso mais generosidade por parte dos teóricos e estudiosos da educação. Faz-se necessária uma ponte entre esses dois segmentos.

Vejo esse futuro acontecendo no mundo Montessori. Foi aqui que tive o acesso à “criança” e senti o respeito e admiração dos teóricos pelo profissional de sala de aula e quero isso para todos professores.

Hoje, além das quarenta horas de classe, apresento e ajudo profissionais da educação pública que querem começar um processo Montessori no seu espaço físico.

Antes da pandemia, Carla Ramires fez uma formação para toda a Rede Municipal de Educação Infantil do município de Bagé RS, com encontros a cada dois meses. Colaborei em algumas destas formações.

Depois de um ano de estudos, visitando as escolas, foi possível observar um padrão em comum. A calçada limpa com uma entrada convidativa, muros e paredes pintados, jardim com flores se misturavam com o pátio que convidava aos balanços, desafios motores, casinha da árvore. Árvores frutíferas recentemente plantadas se espalhavam por espaços antes áridos.

Na recepção, ou secretaria, as paredes claras deixavam em evidência alguns quadros com frases de Montessori, Gandhi… um espaço organizado e atualizado com algumas fotos dos últimos eventos de integração com as famílias revelava a alegria dos que viviam ali.   Um sofá ou banco, com almofadas encapadas, elegantemente para receber. Ao lado, uma ou duas cadeirinhas pintadas cuidadosamente, deixando evidente o olhar para a criança. Uma mesinha com um vasinho de flores e uma bandeja com café e chá.  Ouvir o relato da diretora ou professora sobre a história de cada objeto, que a toalha foi feita pela merendeira, a louça era da mãe da diretora, que um pai havia feito a pintura da sala, iam confirmando a construção coletiva e significativa desse espaço.

Os corredores, antes com portas coloridas e painéis de tnt, mostravam-se agora claros, com algumas imagens de obras de arte ou de trabalhos de crianças, que foram emoldurados e colocados na altura dos seus olhos. Nos banheiros a autonomia se revelava pela acessibilidade. E as salas… elas apresentavam estantes que foram cortadas ao meio e dispostas com uma classificação de materiais pelas áreas de conhecimento. Materiais de linguagem tiveram adaptações dos materiais pedagógicos já existentes. Divididos em conjuntos, ganharam figura fundo ou imagem bidimensional com fichas de vocabulário. Um “banho do bebê” e o “lava-mãos”, cuidadosamente preparados. Um cantinho para aconchego, com alguns livros, convidava ao descanso. Em uma das salas havia duas caixas de verduras sobrepostas e sobre elas uma toalha sem estampas evidenciava objetos da cultura indígena, cuidadosamente colocados. Era uma preciosidade na simplicidade! Paredes claras, com um alfabeto que destacavam apenas as vogais, deixando claro o entendimento do conceito por parte do professor.

Essas escolas não são montessorianas, mas apresentam uma inspiração, um começo, um processo para um “novo tempo”.

As lágrimas escorriam no meu rosto e, então, entendi Marcha Morgan naquele dia em que esteve em Capão da Canoa.

Existe um jeito de levar o Montessori e semear em toda terra, para todos os adultos e todas as crianças?  Existe o receio de que ele se perca em movimentos não comprometidos? Sim e sim. Mas se esperarmos que o sistema atual crie condições seguras de acesso ao método, que ele financie e divulgue, talvez nunca venha a acontecer!

Nosso movimento é silencioso. Porque a paz é silenciosa.


Um pouco do ambiente da Sala de Adriane, na escola E.M.E.F. Luiz Claudio Magnante