Como surgiu a ideia de Educação Cósmica? O que são as Grandes Histórias, as Lições Chaves e Going Out? Existem Limitações em uma sala Montessori? E o que tudo isso tem a ver com a crianças no segundo plano de desenvolvimento?

Embora, inicialmente, a vida de Montessori tenha sido dedicada a observação dos pequenos na Casa dei Bambini e, posteriormente,  na divulgação da abordagem educacional que ela havia desenvolvido, ministrando cursos e palestras em muitos países, desde a década de 30, Montessori pensava sobre a educação das crianças  mais velhas.

Em 1936, no Quinto Congresso Internacional Montessori em Oxford, na Inglaterra, Montessori falou sobre o desenvolvimento de princípios da educação Montessori para Educação Fundamental, que chamaria depois de Educação Cósmica.

Tomando a Holanda como lar, inaugurou em Laren, um Centro de Treinamento e uma Escola Modelo, onde, pela primeira vez, foram utilizados materiais desenvolvidos para o segundo plano de desenvolvimento.

Em 1937, após uma conferência em Londres, Montessori partilhou algumas leituras extensivas com o público e trouxe sua visão acerca desse assunto. Montessori passou a dar às professoras que trabalhavam com as crianças do primeiro plano, ideias de como observar os resultados do trabalho das crianças depois dessa fase e sugestões do que poderia começar a ser feito com as crianças maiores.

Entre 1939-1946, por força da Segunda Guerra Mundial, Maria Montessori e seu filho Mario permaneceram em prisão domiciliar na Índia, e passaram dois anos em uma estação rural em Kodaikanal. Nesta ocasião, tiveram a oportunidade de observar crianças de idades variadas em um ambiente natural, suas famílias e professores. Mario iniciou uma experiência com as crianças na colina às costas da casa onde estavam instalados e começou a perceber que as crianças tinham muitas curiosidades e se mostravam interessadas em tudo sobre aquele ambiente. Mario trabalhava com as crianças e quando retornava, partilhava as informações com sua mãe, que lhe dava ideias e sugestões.

Foram essas experiências que guiaram o pensamento de Maria Montessori sobre a natureza das relações entre todos os seres vivos, e começa a ser desenvolvido o Plano de Educação Cósmica para os anos do Ensino Fundamental.

Em 1948, em viagem para Gwalior, na Índia, Montessori supervisiona a abertura de uma escola modelo até os 12 anos.

Sua obra De l’enfant á l’adolescent (Da Infância à Adolescência), onde Montessori apresenta seus conceitos para a educação de crianças entre 7 e 12 anos, é publicada em francês. Para Educar o Potencial Humano, entre outros títulos, foram publicados em Madras, na Índia.

Maria Montessori refletira sobre a Educação Cósmica até o fim de sua vida, com importantes contribuições de seu filho Mario.

A Educação Cósmica, pode ser vista como uma forma como se educam as crianças do segundo plano, uma abordagem para a compreensão do mundo, e fazemos isso apresentando-lhes uma visão cósmica do universo. O intuito é que a criança, estruture essas ideias apoiada em sua inteligência e perceba que há uma unidade, uma conexão entre todas as coisas, que ela também é parte disso e se questiona: então, qual é o meu papel neste universo? (Dallam, Rebecca)

É de fato notável que essa forma de educar possa elevar à mente de uma criança a tal nível, quando muitos de nós adultos, ainda não chegamos a este ponto.

Montessori diz que um bom professor é aquele que age como um jardineiro, que está sempre a plantar sementes e observar sua germinação. Na educação cósmica, essas sementes são plantadas através das Grandes Histórias.

A história do Deus que não tem mãos é carregada de drama e apresenta a criação do universo à criança, e assim, abre-se o caminho para o estudo da Ciência e da Física. A história da chegada da vida é contada cerca de duas semanas depois, junto com uma linha do tempo. O propósito é ajudar a criança a pensar o que é preciso para a vida existir, que as formas de vida são variadas e há uma relação entre elas e o ambiente onde vivem. Abre-se então, o caminho para a Biologia. Quando terminamos uma grande história, deixamos a sensação na criança de que há mais a saber. A história anterior termina com a silhueta de um ser humano e este é o gancho para a terceira história. A chegada dos seres humanos, contada cerca de uma semana depois abre caminho para o estudo da História e traz a compreensão das características que tornam os seres humanos únicos, que temos a responsabilidade de cuidar do ambiente, não apenas de nós, e que há uma interconexão em tudo que existe. A história da comunicação e dos sinais traz, basicamente, a história do alfabeto. A história dos números assim como a quarta grande história não é algo totalmente novo para a criança, mas pode dar informação sobre algo que ela tenha trabalhado recentemente e pode ajudá-la a expandir sua compreensão. A sexta e última história, O grande rio, é habitualmente apresentada mais tarde, pois antes disso as crianças estão fascinadas pelos animais e sua biologia. É só por volta dos nove anos que as crianças começam a se interessar pelo corpo humano e é nessa altura que podemos abrir esse caminho, através dessa história que aborda também o sistema de reprodução e a sexualidade.

Se as Grandes Histórias trazem uma informação geral, as Lições Chaves vêm trazer os detalhes.

Sabe-se que agora a criança está preparada e precisa de uma compreensão maior do mundo. Há coisas importantes que precisam saber bem para avançar, como se orientar no tempo passado e presente, por exemplo. A Lição Chave desperta a criança para algo novo e pode vir através de um material preparado pela professora, de uma história, de ambos ou de um retalho de informação para depois a criança partir para sua investigação.

Em uma sala Montessori 6-12 anos, tem-se também Limitações.

O professor agora não está mais a confeccionar material o tempo todo. As bandejas com atividades preparadas não existem mais. Esse agora é um trabalho da criança.

No ambiente, uma Limitação é, ter apenas um exemplar de cada material na estante, por exemplo, pois isto oportuniza à criança aprender a esperar. Há ainda atividades que são possíveis de trabalhar em grupo e a criança aprende a compartilhar o material com os colegas.

Limitação de recursos, por isso, os livros são interessantes e estão em quase todas as estantes, no entanto, em pequena quantidade.

A informação também é uma Limitação. Tem-se apresentações, pode-se trazer uma história e depois a criança é incentivada a procurar por mais, que pergunte aos colegas, pesquise, inclusive fora da escola. A criança precisa sentir que o adulto está ali para ajudá-lo a encontrar respostas (Dallam, Rebecca).

Deve-se atentar também para a Limitação de adultos no ambiente. Mais adultos, mais dependência, menos trabalho da criança. Isso nos provoca a refletir também sobre a quantidade de professores especialistas em áreas diversas que circulam pela escola. Algumas escolas optam por reduzir o ciclo de trabalho para dar espaço para as atividades extracurriculares, quando o ciclo de trabalho deveria ser protegido.

Viver em comunidade e agregar-se faz parte das nossas Tendências Humanas (falaremos mais sobre isso em outro texto), e uma das necessidades da criança do segundo plano é aprender a viver em comunidade, trabalhar junto com o outro. Para trabalhar o sentido de comunidade entre as crianças, elas precisam ser muitas. 25 é um número suficiente, 40 é o ideal, segundo as observações feitas por Montessori.

As crianças precisam explorar além das salas de aula e da casa. Escrever cartas, entrevistar pessoas, conhecer a comunidade e seu entorno, fazer compras, organizar passeios. Em Montessori, chamamos esse contato com o exterior de Going Out (podemos falar sobre isso em outro post também).

Os resultados obtidos em uma sala 6-9 (6-12 em alguns países) com crianças que não tiveram oportunidade de estar em uma sala montessoriana dos 3 aos 6 anos pode ser diferente. Identificar desvios em crianças com mentes tão ativas e corpos um tanto desajeitados exigirá mais do adulto. No entanto, sabendo um pouco mais sobre a plasticidade neural, hoje, acredita-se que a criança é capaz de alcançar resultados significativos no segundo plano de desenvolvimento, se puder contar com um adulto revestido de paciência, esforço e estudo e um ambiente favorável. É preciso acreditar no potencial da criança como formadora do homem em qualquer plano de desenvolvimento.

Notas: Maria Montessori publicou, palestrou e realizou muito mais trabalhos durante os períodos citados aqui, no entanto, o foco desse texto é a Educação Cósmica, por isso, alguns passagens não foram comentadas.

Fontes de pesquisa e estudo

Estudos realizados no Curso de Orientação para Assistentes Montessori 6-12 anos, com certificado AMI em 2021.
Para educar o potencial Humano, Maria Montessori
A Experiência Kodaikanal: Entrevista Kahn-Montessori (partes 1 e 2)
https://eric.ed.gov/?q=mario+montessori+david+khan&id=EJ565564
https://eric.ed.gov/?q=mario+montessori+david+khan&id=EJ1078110
AMI – Linha do tempo da vida de Maria Montessori
https://montessori-ami.org/resource-library/facts/timeline-maria-montessoris-life