Enquanto nos outros animais os quatro membros desenvolvem-se igual e simultaneamente, o homem, graças ao desenvolvimento mais avançado do cérebro, desenvolve-os em pares separados: pernas e braços. Assim, conquistou a importante habilidade de manter-se equilibrado apoiando-se apenas em dois membros que lhe garantem o equilíbrio necessário para o caminhar ereto.

A Dra. Montessori considera a função desse par de membros como fixo e biológico, posto que, todo homem saudável em contato com o seu ambiente andará apoiado sobre os pés da mesma maneira. Esses membros podem ser estudados do ponto de vista biológico, fisiológico e anatômico.

Para além da deambulação, que permite ao homem ter braços livres, já que estes não precisavam servir de apoio e sustentação para o corpo, a mão do homem tem algo diferente: os polegares. São eles que permitem o movimento de agarrar e construir coisas com as mãos. E tem algo ainda mais incrível, especial e que nos torna únicos: a capacidade de sentir, pensar e agir. Existe, pois, um elo entre mão e mente, e a inteligência se constrói a partir desse desenvolvimento psicomotor.

As mãos são consideradas por estudiosos como um órgão psíquico que carrega em si a história do homem, e a partir disso, a Dra. Montessori diz que:

O desenvolvimento psíquico da criança está ligado ao desenvolvimento das mãos (A Mente da Criança, p. 143)

Diferente dos pés, que seguem um guia biológico, não se pode estimar o que o homem será capaz de construir com as mãos. No entanto, para que esse instrumento seja capaz de realizar algo, ela depende da vida psíquica e da inteligência herdada desde o início da civilização.

Em todas as civilizações passadas há registros dos trabalhos manuais – dos mais rudes, baseados na força, como os enormes monumentos feitos de blocos de pedras – até aos mais refinados e admiráveis como na Índia e no Egito. Expressões artísticas ainda mais primorosas, indicam civilizações certamente superiores. Através deles estudamos e compreendemos os hábitos, os pensamentos e o espírito dos povos de uma determinada época. Nenhum resquício da humanidade teria nos restado antes do desenvolvimento da linguagem falada e escrita, não fosse as obras construídas pelas mãos dos homens. Monumentos grandiosos e as mais variadas obras de arte revelavam, desde tempos muito remotos, que o trabalho das mãos servia ao intelecto superior do homem.

Linguagem para expressar o pensamento e mãos aptas ao trabalho, eis as “características motoras” associadas ao desenvolvimento do intelecto superior do homem. Para tanto, precisamos da ajuda de dois sentidos: a audição – porque é preciso ouvir para desenvolver a linguagem, e a visão – que nos permite ver onde pisamos, o que tocamos e centrar a atenção no trabalho que realizamos com as mãos.

De acordo com a Dra. Montessori, o desenvolvimento do movimento está paralelamente relacionado às leis biológicas e a preparação para a vida futura. De toda forma, o desenvolvimento do movimento está sempre combinado com o uso dos músculos.

Se estudarmos a criança, observamos dois desenvolvimentos síncronos: o da mão, e o do equilíbrio e do andar, sendo que, apenas por volta dos dezoito meses perceberemos uma unidade desses dois desenvolvimentos.

Antes mesmo de poder agir por sua vontade, a criança observa e absorve tudo que está ao seu redor no ambiente. Orientar-se no ambiente e saber o lugar de todas as coisas é quase uma questão de sobrevivência para o pequeno ser que acaba de chegar ao mundo.

Fonte: (tabela extraída do livro A Mente da Criança, 2019, p. 145)

Em seu primeiro semestre de vida, a criança, guiada apenas pelo instinto, começa a manifestar a primeira ação do movimento: o de agarrar. A partir dos seis meses, a criança já o faz, intencionalmente. Mais tarde, por volta dos dez meses, a criança, atraída pelo ambiente, deseja agir, explorar e manusear os objetos a sua volta. Antes mesmo do seu primeiro aniversário, as mãos exercitam-se abrindo e fechando gavetas, portas, tampas, tirar e colocar objetos dentro de um recipiente.

Enquanto as mãos se desenvolvem a serviço da inteligência, os membros inferiores estruturam-se anatomicamente, sem nenhuma intervenção do intelecto. O cerebelo cuida do equilíbrio e o cérebro impulsiona a criança a levantar-se, sentar-se, virar-se de bruços, engatinhar e andar.

Aos dezoito meses, a criança que conquistou as habilidades de agarrar objetos e caminhar com equilíbrio deseja movimentar-se, carregar objetos pesados e, especialmente, ganhar força. Sentindo-se preparada e fortalecida, a criança deseja ser livre, agir por si mesma, fazer longas caminhadas, escalar, subir e descer escadas, e realizar os trabalhos que observa os adultos realizarem no ambiente. A unidade entre as mãos e o equilíbrio se estabeleceu.

Desde a mais tenra idade, a criança demonstra um forte desejo de participar dessas atividades, de fazer as coisas que vê o adulto fazendo. Não se trata, no entanto, de uma simples imitação, a criança observa, internaliza e age movida pela tendência de satisfazer suas necessidades humanas.

Da unidade entre movimento e cognição, vontade e ação, desenvolve-se a personalidade humana, e a criança realiza o trabalho mais importante de todos: a formação do homem e a contínua evolução da humanidade.

Acredita-se ainda, que o desenvolvimento das mãos tenha relação com o desenvolvimento do caráter da criança. A criança que tem a oportunidade de realizar trabalhos interessantes com as mãos, desenvolve um caráter mais forte, se mostra capaz de obedecer, tem mais iniciativa, energia e alegria.

Tomando como base a história da civilização humana e a observação científica da criança em um ambiente natural, a Dra. Montessori chegou aos “períodos sensíveis” e as “tendências humanas” que guiam a criança em seu desenvolvimento. A partir das suas descobertas, a Dra. Montessori desenvolveu a pedagogia científica, uma forma de educação que ajuda a criança a desenvolver-se integralmente.