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História real de um maternar
Trilhando o caminho para a paz
O Chamado e a Gestação
Era domingo, o Fantástico apresentava uma reportagem de um quarto de criança onde, no lugar de um berço, havia um colchão no chão. Além da decoração diferente, me senti impactada por duas palavras: liberdade e autonomia. Sem entender direito o porquê, eu me conectei de imediato com a ideia e pensei: "Quando eu tiver um filho, quero que seja assim!"
Eu tinha por volta de vinte anos, era solteira, não tinha um computador; aliás, no bairro periférico onde eu morava mal chegava linha telefônica, quem dirá internet. Em 2014, aos trinta e cinco anos, acabara de me formar em Administração. Meu TCC sobre Empreendedorismo havia virado palestra na faculdade; eu estava academicamente a pleno vapor. Estava vibrando com a minha mais nova conquista: ser admitida no programa de MBA na FGV. Para quem cresceu na periferia, estudou a vida toda em escola pública e só teve oportunidade de ir para a faculdade depois de casada, esse era um grande feito.
Profissionalmente, eu estava dividida. Não queria mais trabalhar como assistente administrativa, eu almejava novos desafios. Um irmão advogado acabara de abrir seu escritório e me convidou para administrar seu negócio. A mente borbulhava, mas um chamado ainda mais forte ecoava no meu coração: a vontade de ser mãe. Como não tinha muito tempo a perder, me desafiei a realizar todos os sonhos ao mesmo tempo. Anunciei a minha gestação no dia da minha colação de grau.
Na entrevista do MBA, a coordenadora me tranquilizou dizendo que meu marido poderia me acompanhar depois que a bebê nascesse para que eu pudesse amamentá-la. Aceitei de pronto; afinal, eu só teria um bebê e logo retomaria todas as minhas atividades. Trabalhando com meu irmão, eu teria mais flexibilidade também.
Tínhamos um plano de saúde bem limitado à época. Dentre as poucas opções de obstetras, escolhi uma que era perto de nossa casa e do meu trabalho. Na primeira consulta, ela sequer me examinou. Disse que, por conta da minha idade, eu precisava de um especialista em gestação de risco. Mal deu tempo de esquentar a cadeira e ela me entregou um encaminhamento para um especialista na cidade vizinha. Saí do consultório sem acreditar que havia passado por aquilo. Era a primeira consulta, eu estava ansiosa, queria saber se corria tudo bem. Tomei fôlego, um café e segui para casa. Por sorte, consegui uma consulta com o especialista na mesma semana.
No consultório do tal especialista, ainda de pé em frente à sua mesa, ele me pergunta: "O que você faz aqui? Você tem alguma comorbidade?". Respondi secamente que não e lhe entreguei o encaminhamento. Ao ler o nome da médica no papel, ele disse rindo: "Ah, não. Ela de novo. Olha moça, essa médica sempre faz isso, eu já disse a ela que não aceitaria mais". Eu o olhava perplexa. Após um suspiro profundo, ele se levantou e reconsiderou. "Bom, você já está aqui. Deite-se na maca. Eu vou te examinar e pedir alguns exames". Eu não tinha certeza se ainda queria estar ali. Mas ele ao menos havia se preocupado em saber se estava tudo bem. Ele não era muito simpático, tinha um jeitão de Doctor House. Sim, aquele médico maluco da série.
Descobri depois que ele era o chefe dos obstetras daquele hospital, o que me levou a pensar que ele podia ser maluco, mas um bom médico. Segui com ele. Nas consultas de rotina, sempre nos tranquilizava em relação à saúde e desenvolvimento do bebê. Quando perguntamos se ele faria o parto, ele respondeu prontamente que só fazia partos, se necessário, em seu dia de plantão. Não tínhamos verba para contratar um plano de parto à parte e, de qualquer forma, aquele era o maior hospital da região. Como, segundo o especialista, tudo estava correndo bem com a minha gestação, e pelo histórico familiar a bebê nasceria escorregando como um quiabo, me restava confiar que tudo daria certo.
Morávamos em São Vicente e meu marido trabalhava em São Paulo. Saía de casa muito cedo e retornava por volta das 7 e meia da noite, se a serra estivesse tranquila. Em meio às ocupações com trabalho, estudos, casa, bichos e eventos familiares, sobrava pouco tempo para nos dedicarmos ao mais importante: a educação de um ser humano que chegaria em um mundo novo em pouco tempo. Inevitavelmente, três perguntas cercam uma gestante o tempo todo: o sexo do bebê, o enxoval e o tipo de decoração do quarto. Então, eu fui, tradicionalmente, seguindo nesse passo. O resto — pelo que todos a minha volta contavam — eu saberia resolver pelo instinto materno.
A primeira coisa que me veio à cabeça ao pensar na decoração do quarto da nossa bebê foi aquela reportagem do passado no Fantástico. Quinze anos havia se passado. Com acesso à internet, eu pesquiso por "quarto de criança com colchão no chão". Descobri que chamavam isso de "quartinho montessoriano". Agora havia umas camas bonitas, que pareciam uma casinha, mas aquela não era minha ideia. Fazia parte do quarto também espelho, barra, armário baixinho. Para mim, era esse conjunto de coisas que fazia a criança ter liberdade e autonomia, as duas palavras que me impactaram tanto.
Enquanto aguardávamos a entrega do nosso apartamento novo, vivíamos em uma casa alugada, muito antiga, cheia de umidade e toda a cadeia de insetos. Logo percebemos que alguns elementos da decoração não eram compatíveis com o nosso ambiente, pois a parede esfarelava toda vez que a gente tentava colocar um prego. Eu receava ainda mais os insetos. Um amigo nos ofereceu berço, cômoda e uma cadeira de amamentação. Eram móveis lindos, estilo provençal e, convencida de que eu precisava pensar primeiro na segurança e na saúde da nossa bebê, abandonei a ideia do tal quarto montessoriano naquele momento.
Passei a gestação inteira mergulhada em pilhas de processos, apostilas e uma calculadora HP. Achei incrível quando cheguei para fazer a última prova do semestre e haviam deixado uma garrafa de água e uma cadeira extra para eu esticar as pernas se precisasse, e era a única que tinha permissão para sair da sala se precisasse ir ao banheiro. Eu estava com pouco mais de trinta e quatro semanas de gestação, rosa e inchada como uma leitoa. Me despedi dos colegas com um: "Até logo, nos vemos depois das férias!"
Um Parto Inesperado
No início das férias, influenciada pelas minhas irmãs, organizamos um chá de bebê só com pessoas bem próximas. Dias depois, amigos da empresa do meu marido decidiram organizar um chá de bebê também. No caminho para casa, ainda na estrada, senti um desconforto. A mim pareceu normal depois da agitação dos últimos eventos. Eu só precisava descansar. De fato, no dia seguinte eu acordei melhor.
Passamos o dia organizando tudo o que ganhamos e fiz uma lista com os itens que faltavam comprar. No final do dia, estávamos exaustos, mas felizes. Tomei um banho e me deitei cedo. No meio da noite, acordei com um tipo de cólica. Andava para um lado e para o outro. Tomei outro banho. Tentei me deitar mais um pouco, mas não encontrava uma posição cômoda. Voltei a caminhar. Nada. Meu marido, incomodado, disse: "Chega! Você não está bem, temos de ir para o hospital". Eu resisti por um tempo, mas ele me convenceu.
Fiquei em observação até o início da manhã seguinte, mas antes da alta o médico avisou: "Eu vou te liberar para você ir para casa, arrumar suas coisas e voltar". Estava medicada e me sentia ótima. Acabava de completar 35 semanas, nossa filha não vai nascer agora. Rindo, eu disse ao médico que não seria necessário voltar.
Em casa, continuei o repouso e passei o resto do dia dormindo. Quando tive vontade de levantar já era noite; comi algo leve, tomei um banho, assistimos um pouco de televisão. O marido saía cedo para o trabalho no dia seguinte, então, nos deitamos cedo. No meio da noite, vivemos a reprise da noite anterior. Caminho pela casa, tomo banho, me sento no sofá, me deito na cama. O ciclo se repete até o marido dizer de novo: "Chega! Você está gastando o chão da casa e não está passando. O médico disse que você ia voltar. Você quer que eu arrume a mala?". De imediato respondi: "Não precisa. Nós vamos voltar."
No hospital, era notável a preocupação no rosto do médico plantonista. Chamou uma enfermeira, perguntou quem era o meu obstetra e saiu apressado da sala. No corredor ouvi dizer ao meu marido: "Você precisa abrir a ficha na recepção rápido. Nós vamos levá-la para a sala de parto".
Eu estava bem, mas, de tempos em tempos, sentia fortes contrações. Perguntei à enfermeira se podia caminhar, pois isso me ajudava. Ela me liberou, mas minutos depois veio correndo atrás de mim, com uma cara de espanto dizendo: "Vamos voltar, o médico mandou você ficar deitada". Mais preocupada com a palidez da enfermeira do que com as contrações, eu obedeci de pronto. Não pude deixar de perguntar: "Moça, o que está havendo?". Ela respondeu: "A senhora está com nove dedos de dilatação. Precisamos ir agora mesmo para a sala de parto. O médico do PS entrou em contato com o seu obstetra. Por sorte, ele está no hospital e cuidará do seu parto. Seu marido subirá assim que terminar a ficha na recepção."
Em situações de pânico, algo divino acontece comigo e me mantenho estranhamente calma. Eu pensava: "Ok, eu não queria um parto prematuro, mas não tenho escolha agora, minha filha está nascendo, e meu obstetra, no final das contas, está aqui. Vai dar tudo certo".
Chegando à sala de parto, meu médico já posicionado me pergunta: "Como estão as dores?". Respondi calmamente que só sentia algumas contrações fortes, mas eu estava tranquila. Para o meu espanto, ele diz que para ajudar um pouco com as dores, seria anestesiada. Eu tentei argumentar, mas não deu tempo; fui tomada de surpresa por uma agulha espetando minhas costas. Em alguns segundos não sentia mais meu corpo. Estranhamente, o médico me pedia que fizesse força. Eu tentava, mas, anestesiada, perdi a noção do meu esforço. Sem nenhum tato, ele me dizia que se não ajudasse teria de forçar a saída do bebê. Eu não entendia o que ele queria dizer com isso e continuava me esforçando. No último momento ele disse que eu podia relaxar porque ele já estava retirando a criança.
Minutos depois, escuto o choro da minha bebê. Senti um alívio enorme. Só queria que tudo aquilo acabasse. A enfermeira me mostrou a bebê rapidamente, beijei sua cabeça e a levaram para o centro de maternidade. O médico me disse que apesar de prematura, ela tinha um bom peso e não precisaria de UTI. Eu permaneci um tempo na sala de parto, sem sentir nada, mas o médico continuava posicionado. Quando meu marido chegou, nossa filha já havia sido levada da sala de parto. Meu marido avisou a todos e assim que pôde minha mãe veio para o hospital. Todos ficaram preocupados com o nascimento prematuro. Assim que ela chegou, meu marido correu para casa para fazer a nossa mala.
De volta ao quarto, demorei para voltar a sentir meu corpo e ainda não entendia o porquê da anestesia. Já estava com minha mãe quando uma pessoa da equipe médica passou para me entregar a documentação do parto. Ao ler, minha mãe questiona: "Você não me disse que chegou aqui com nove dedos de dilatação? Por que raios a sua filha foi retirada a fórceps? Não se usa isso há séculos." Eu não sabia o que responder. Eu nem sabia o que era fórceps. Ninguém nunca me deu uma explicação plausível. Além disso, também percebi que um longo corte havia sido feito para facilitar a saída da bebê. Mas isso era o de menos naquele momento.
Embora nossa filha não tenha ficado em uma UTI neonatal, tivemos muitas complicações no começo. Perda de peso, hipoglicemia, icterícia e dificuldades com a amamentação foram algumas delas. Depois de cinco dias tivemos alta e, tão logo saímos do hospital, tive de ir em busca de roupas com fôrma menor, pois nada do que havia comprado ou ganhado servia nela.
O Puerpério e a Realidade
Estive em uma das melhores instituições de ensino, aprendi muito sobre negócios e cálculos avançados, minha gestação foi acompanhada por um especialista em alto risco, mas nada disso podia me ajudar nesses momentos. Ninguém havia me explicado sobre violência obstétrica, puerpério, período simbiótico, fases de desenvolvimento infantil.
Não contávamos com um nascimento prematuro, então, as férias do meu marido estavam agendadas para o mês seguinte. Seu gestor permitiu que ele trabalhasse de casa por mais cinco dias e esse foi o período em que eu tive alguma ajuda.
Com uma semana de vida, retornamos ao hospital para a consulta de rotina e nossa filha continuava perdendo peso. Conto à pediatra o quão difícil era acordá-la para mamar, que dormia muitas horas seguidas como se ainda estivesse na barriga. A pediatra diz que precisávamos ficar atentos, pois poderia ser o indício de um problema neurológico. Eu comecei a chorar ali mesmo e só parei no dia seguinte.
Ao chegar em casa, recebo uma ligação da FGV perguntando sobre o meu retorno ao MBA. Eu respondi sem pensar: "cancela". O atendente ressalta: "senhora, para cancelar terá de pagar uma multa..." e o resto eu nem me lembro. Passei o telefone para o marido e disse: "por favor, resolva isto". Anunciei ao meu irmão que eu não voltaria para o escritório.
Uma das minhas irmãs, horrorizada, me passou o contato da pediatra da sua filha. No dia seguinte entramos em contato e agendamos uma consulta. A nova pediatra descartou a possibilidade de qualquer problema neurológico, mas a bebê realmente precisava ganhar peso. Desde a maternidade, havia sido orientada a amamentar nos métodos arcaicos. Um seio por vinte minutos, depois o outro por mais vinte minutos e se continuasse com fome, deveria complementar com a fórmula. Um irmão enfermeiro, com especialização em neonatal, foi quem me ajudou com a amamentação e me indicou que procurasse um banco de leite para ajuda especializada. Foi a primeira vez que tive alguma informação valiosa: a amamentação em livre demanda. Foram dois meses levantando-me de hora em hora até que a criança chegasse ao peso ideal. Era meu sonho amamentar e eu decidi comprar essa batalha. Por dois meses, a criança dormiu dentro de uma banheira ao lado da minha cama, como faziam no hospital.
No terceiro mês, vencemos a batalha do peso. Depois disso, a cada consulta a pediatra me tranquiliza em relação ao desenvolvimento saudável, do ponto de vista clínico. A rotina com a bebê prematura, a casa, dois gatos e um cachorro, era insana. Eu rezava para a serra estar tranquila e o marido chegar em casa antes das vinte horas.
Os conselhos que eu recebia de deixar chorar ou colocar na frente da TV para que eu pudesse dar conta de tudo não faziam nenhum sentido para mim. Mas, confesso que por desespero, eu tentava de tudo. Nada funcionava. Aquilo me martirizava. Daí veio uma sugestão que era unânime: comprar um cercadinho. Eles adoram! "Ela vai ficar quietinha e você vai conseguir fazer as coisas", me diziam pessoas com experiência em criar filhos. Compramos. Colocava uns brinquedinhos e conseguia manter nossa filha presa nele pelo tempo de lavar e enxaguar a louça correndo. Não mais que isso. Ela odiava aquilo e para ser franca, eu também. Troquei o cercadinho por um edredom no chão.
O Encontro com a Filosofia
Em meio ao esgotamento físico, psíquico e emocional, um dia me peguei pesquisando: "como cuidar de uma casa e de uma criança sem enlouquecer". Pesquisar conteúdo na internet, no período de puerpério, com a bebê no seio, não era o cenário perfeito, nem o mais adequado. Eu queria resultado rápido, então, buscava algo visual e fácil de implementar. Como resultado, surgiram uma enxurrada de ideias; algumas me pareciam bizarras. As "atividades sensoriais" me pareceram interessantes, fáceis de colocar em prática, cabiam no bolso, não aprisionavam a criança e ela se distraía por um tempo. Ótimo, vou por este caminho. De novo, esbarrava em Montessori. De novo, aquelas palavras ecoavam em minha mente: liberdade, autonomia.
Pesquisando mais sobre o "quartinho montessoriano", lembrei de uma foto que havia visto com tapetes de EVA coloridos e um espelho de acrílico. A ideia parecia boa, barata e decidi colocar em prática. Para mim, estava tudo certo. Para conseguir arcar com o investimento no apartamento novo, precisávamos mesmo economizar. O marido levava marmita e só depois de algum tempo conseguimos ter a ajuda de uma diarista uma vez por semana. Tirando as visitas de final de semana, era mesmo eu e a criança sozinhas em casa o tempo todo. As saídas para a criança tomar o sol da manhã e as idas ao mercado e farmácia eram os momentos em que eu via gente diferente do marido e da cria.
Os momentos na cozinha eram os mais insanos. Eu era a louca que precisava ter cinco cores no prato, legumes sempre cozidos no vapor e não repetia os mesmos alimentos do almoço no jantar. Alimento congelado, mesmo que fosse uma sopa feita em casa, nunca. Eu gostava de tudo muito fresco, então, ia ao mercado quase todos os dias. Para manter todo esse padrão de qualidade, eu passava mesmo muito tempo na cozinha. Perdemos algumas panelas queimadas nesse período, porque eu as esquecia no fogo enquanto precisava dar conta do choro, do pedido de atenção ou troca de fralda. O pior era ter que cozinhar tudo de novo. Sobrava choro e faltava paciência, para mim e para a criança.
Nossa filha tinha por volta de nove meses quando nos entregaram as chaves da casa nova. Mesma época em que o marido, já não aguentando ver meu desespero, aceitou o convite para trabalhar em outra empresa, agora, remotamente. Era um momento de alegria, de conquista, mas também de muita correria e estresse com a mão de obra. Nesse período, inevitavelmente, a criança passou mesmo muito tempo no carrinho ou no colo, indo de um lado para o outro até que finalmente mudamos para a casa nova, semanas antes de completar seu primeiro ano de vida.
Nesse momento, podíamos revisitar a ideia do "quartinho montessoriano". Comecei por uma estante baixa, dois caixotes de madeira para guardar brinquedos, prateleiras para livros e aproveitei o espelho de acrílico que já tínhamos. Fui a uma casa especializada e comprei mais tapetes de EVA para cobrir o quarto todo, nas cores rosa e roxo, como eu havia visto em algumas fotos na internet. A ideia era que a criança pudesse explorar o ambiente, sem ficar no chão gelado e duro. Mantivemos o berço no quarto novo até a chegada do verão; a criança estava com um ano e quatro meses. É, eu não entendia muito sobre ambiente preparado, nem as pessoas da internet.
O apartamento novo era mais fácil de cuidar e eu tinha um pouco mais de ajuda. Encontrei uma academia com natação para mães e bebês e nos inscrevemos. Além de momentos de conexão e vínculo, agora eu tinha a companhia de outras mães para conversas e trocas. Todos os dias, com exceção dos chuvosos, saíamos para um passeio em um parque, praça ou praia. Andávamos sem pressa, permitindo que a criança observasse tudo quase sempre do carrinho. A libertava no jardim, na areia da praia ou quando observava um interesse forte em algo.
Riviera, nosso adorado cão, beirando seus 17 anos, começou a adoecer e definhar lentamente. Com displasia e incontinência urinária, as idas ao veterinário eram constantes. O marido tentava dar conta do trabalho, do cachorro e da feira. Eu cuidava da manutenção da casa e da rotina da criança. A cada quinze dias, o marido precisava ir à sede da empresa em São Paulo e eu tinha que dar conta de trocar as fraldas da criança e do cachorro e todo o resto sozinha. O cenário era perfeito para um surto e tinha dias que eu queria mesmo fugir para as montanhas. Havia muitas feridas por trás daquela adulta difícil e a maternidade estava trazendo todas elas à tona; eu só não havia descoberto nada sobre isso ainda.
Dilemas da Maternidade e Carreira
Nossa filha tinha por volta de 18 meses quando um amigo querido me disse que estava começando um novo empreendimento, e que ele e sua esposa gostariam muito que eu fizesse parte da equipe. Havíamos trabalhado juntos por anos e sempre o tive como um líder admirável. He tinha ideias inovadoras em mente e eu gostava disso. Fiquei balançada. Eu retornaria ao mercado de trabalho, nossa filha iria para a escola, o marido teria um pouco mais de paz no trabalho remoto. Agendei algumas visitas em escolas da região. No primeiro dia de visitas retornei para casa chorando. Eu não conseguiria deixar minha bebê em nenhum daqueles ambientes.
Quando nossa filha tinha por volta de um ano e dez meses, descobri um curso sobre educação para famílias em uma plataforma digital. Um grupo de pessoas de diferentes áreas falava sobre formas respeitosas de educar. Era um lançamento e ofereciam valores promocionais para os primeiros alunos. Conversei com o marido e decidimos investir. Só agora eu descobria Maria Montessori, sua filosofia e sistema de ensino. Uma das ministrantes do curso falava em "as atividades de Vida Prática" que podiam ser aplicadas em casa. Entendi que a liberdade e autonomia da criança envolviam a casa toda, não só o quarto.
Os vídeos eram extensos e eu precisava de tempo para assisti-los. Com um fone de ouvido, seguia o curso entre uma tarefa e outra sempre que a criança dormia. Algumas coisas fui aplicando de imediato, outras mais lentamente. Em pouco tempo, nossa filha, erguida por uma cadeira para alcançar a pia, lavava louças, descascava e ralava legumes, preparava sucos, ajudava no preparo de alimentos. A concentração durante as atividades e a alegria após cada trabalho realizado era algo que impressionava a todos. Eu sentia um misto de emoções ao assistir à entrega da nossa filha ao realizar essas tarefas: emoção, curiosidade.
Contudo, observava que algumas atividades a frustravam bastante. Com o tempo, fui aprendendo que era preciso um preparo maior dos adultos e do ambiente antes de convidar a criança para um trabalho. Eu ainda não sabia observar a criança para entender quais eram as suas habilidades, debilidades, interesses, apresentar cada atividade com uma sequência de passos, quais eram os materiais adequados para cada fase de desenvolvimento. O curso não deixava essas coisas muito claras. Ainda assim, com pequenas mudanças no ambiente e em nossas atitudes avançávamos um pouco a cada dia. Os dias difíceis continuaram existindo, mas eram mais espaçados.
Na mesma plataforma, havia uma moça que falava sobre Disciplina Positiva, Comunicação-não-violenta e Vulnerabilidade. Foi aqui que eu comecei a entender sobre autoconhecimento e porque a maternidade parecia me devolver todas as dores da minha infância. Tive a oportunidade de assistir a duas palestras de Elisama Santos ao vivo. Assim como eu, sempre havia homens e mulheres debulhados em lágrimas. Parecia uma sessão de terapia coletiva e intensiva. Eu comecei a cuidar mais disso. Fui entendendo que todas as emoções são válidas, que estava tudo bem se um dia não desse conta de ter cinco cores no prato.
Buscando por mais conteúdo sobre Montessori, cheguei a um grupo de Facebook onde famílias e estudiosos compartilhavam estudos, experiências, dúvidas, postavam fotos e vídeos fofos de suas crianças. Chorava lendo os textos de um especialista e relatos de outras famílias. Chorava porque eram tocantes, mas também por uma culpa que não cabia dentro de mim. Como uma pessoa esclarecida podia ter perdido tempo com pesquisas rasas e ignorar tanto sobre a infância? Como obstetras, pediatras, cursos de maternidade, família e toda a sociedade não me prepararam para a maternidade? Assim como eu, as pessoas ao meu redor ignoravam tudo isso. Era um problema social.
Achando que havia aprendido um bocado agora, também compartilhava vídeos e fotos das atividades da minha filha em casa. Fazia um sucesso enorme e eu tinha um orgulho danado deles. A criança parecia crescer em uma velocidade que os estudos não conseguiam acompanhar, mas eu sentia que havia encontrado um pouco de paz no meu maternar. A paz de Montessori!
Nessa fase, eu sentia que a maternidade e Montessori haviam me virado do avesso
e eu descobri que o avesso era o meu lado certo.
Eu não me via mais fazendo outra coisa, falando sobre outro assunto. Montessori havia se tornado parte da minha essência. Eu enxergava a mim mesma, a minha filha, a infância e a humanidade com outras lentes.
Por volta dos dois e oito meses, comecei a perceber que as atividades em casa e os passeios diários não atendiam mais as suas necessidades. Havia dias em que ela não queria a soneca da tarde. Confesso que essa foi uma fase desafiadora. Mesmo com o coração dividido, percebi que chegara o momento de ela ir para a escola por algumas horas. Mesmo sabendo que seria bom para nós duas, um sofrimento invadia meu peito, era uma dor sufocante. Uma irmã, percebendo que eu precisava de ajuda para lidar com isso, me indicou uma amiga terapeuta. Passando por um mergulho doloroso e profundo, descobri que a raiz daquele apego excessivo, que me impedia de colocar minha filha na escola morava na minha infância. Sentimentos de abandono e rejeição sofridos no passado me faziam acreditar que deixá-la em uma escola sob o cuidado de outras pessoas era uma forma de abandoná-la.
Foram meses entre sessões de terapia e visitas a escolas até que eu estivesse pronta. Não havia uma escola Montessori na cidade, mas encontramos um lugar onde a dona era, acima de tudo, humana. Até hoje não conheci uma escola com uma história tão linda e uma diretora tão acolhedora e apaixonada pela infância. No mesmo dia em que Laura começou na escola, meu amigo volta a me convidar para trabalhar em seu empreendimento: "Esperamos por você bastante tempo, agora você não tem mais desculpas", disse em tom de brincadeira. Pensei que a maior barreira havia sido vencida, então, eu tinha que aproveitar o momento e a oportunidade que batia à minha porta mais uma vez.
Havíamos nos planejado para deixá-la na escola por quatro horas apenas, mas com a volta ao trabalho, tivemos de mudar para o período integral. O novo trabalho parecia promissor. A empresa estava em expansão e o apreço entre mim e o casal empreendedor era recíproco. Meu amigo, especialmente, tinha um olhar diferenciado e valorizava muito a família. Para mim, isso valia mais que qualquer cargo ou salário. Eu tinha espaço para discutir ideias, implementar coisas novas, mas àquela altura a maternidade havia mudado muitas coisas em mim, especialmente, depois de conhecer Montessori.
Passados dois meses da adaptação escolar, houve um regresso. Todos os dias a escola ligava pedindo que eu fosse buscar minha menina com febre, que passava assim que chegávamos em casa. Apesar da compreensão de todos no trabalho, eu começava a me questionar se estava fazendo a coisa certa. Números, planilhas e algumas práticas do mercado não faziam mais nenhum sentido para mim. Eu estava infeliz e minha filha sofrendo. Eu tentei por mais um tempo, mas depois de uma conversa sincera, disse ao meu amigo que eu não conseguia mais. Voltamos ao plano inicial e reduzimos o período em que nossa filha ficava na escola.
O Nascimento do Caminhar Montessori
Eu continuava estudando a filosofia montessoriana, mas me sentia isolada na minha cidade; ninguém próximo a mim conhecia Montessori. Até que um dia vejo o anúncio de uma oficina com uma guia experiente. Um final de semana intenso, onde tive a oportunidade de estar com pessoas que entendiam sobre o que eu falava, assistir a apresentações, tocar materiais. Eu começava a desvendar alguns mitos e fazer algumas descobertas importantes sobre o Método e a Filosofia de Maria Montessori. Enquanto assistia a uma apresentação de matemática, sentia as lágrimas escorrerem no meu rosto. Não se tratava só de emoção, eu sentia indignação, frustração, inquietação, culpa. No domingo à tarde, a organizadora do evento revela o verdadeiro intuito por trás daquela oficina: Divulgar e encontrar professores para a escola que nasceria naquela casa. Eu nem podia acreditar que, finalmente, minha filha teria uma escola Montessori para estudar. Definitivamente, eu precisava estar mais próxima desse universo.
Um especialista que eu acompanhava há algum tempo no Facebook anunciava sua agenda de cursos e palestras. Com a criança mais independente e o apoio do marido, comecei a investir nesses eventos presenciais. Subi a serra sozinha pela primeira vez desde que minha filha nasceu para participar de um minicurso. No intervalo soube que haveria um curso intensivo no final de semana seguinte. Nosso orçamento estava apertado, o evento era longe e a data muito próxima. Eu escolhi não criar expectativas para não me frustrar. Para minha surpresa, meu marido, pensando que o esforço valeria a pena, resolveu me presentear. Ele não participaria, mas ficaria próximo com nossa filha.
De uma brincadeira em um dos intervalos dessa imersão em São Carlos, brotou a oportunidade de uma parceria de trabalho. Impactada por tudo o que havia aprendido e vivenciado naquele final de semana de outubro de 2019, criei uma página de Facebook com o intuito de disseminar Montessori e compartilhar minhas vivências maternas. Nascia o Caminhar Montessori. O marido comentou com um amigo que, simpatizando com a ideia, nos presenteou com o logo que usamos até hoje.
Depois de alguns dias trocando mensagens por e-mail com Gabriel Salomão, firmamos o compromisso de um "Curso de Introdução ao método Montessori em Santos", que aconteceria em fevereiro de 2020. Pedi ajuda de um antigo professor da faculdade, e juntos organizamos o evento que contou com um público de 70 pessoas na Pinacoteca da cidade. Vieram pessoas de cidades vizinhas e até de outros estados. Com o sucesso do primeiro evento, havia planos para uma sequência de cursos. Eu vivia um sonho: minha filha estava estudando em uma escola Montessori e eu estava organizando eventos com o especialista mais popular da época. E ainda tinha mais: No mês seguinte, eu viajaria para a minha primeira formação de assistente no método.
Somado a tudo isso, houve um episódio que me marcou. Eu sabia que um casal viria com um bebê muito novo e gostaria de acomodá-los da melhor forma. Pedi a minha mãe que fosse comigo comprar algumas coisas, pois ela conhecia melhor as lojas do centro da cidade. Conversando com uma vendedora, eu divulgava o evento, enquanto explicava o que precisava.
Minha mãe, participando da conversa disse: "Eu não entendo nada disso que ela está fazendo,
mas eu sei que a filha dela é a criança mais esperta que eu já conheci".
Eu respirei fundo e senti meus olhos marejarem. Aquele era o primeiro elogio, ainda que indireto, que ouvia de minha mãe. E ela falava com a propriedade de quem criou oito filhos e tinha mais de vinte netos.
Resiliência em Tempos de Pandemia
Ao longo da mesma semana, os telejornais anunciavam um vírus que estava matando milhares de pessoas no Oriente e se alastrava rapidamente. Cidades do mundo todo entraram em lockdown. Nem mesmos as grandes autoridades sabiam o que esperar da Covid-19. Tivemos de lidar com perdas irreparáveis, interromper sonhos e nos adaptar a uma nova realidade. As escolas tinham o desafio de adaptar a educação infantil para o ensino remoto e trabalhar em parceria com as famílias. As famílias com crianças pequenas, por sua vez, se viram diante de um desafio ainda maior: dar conta do trabalho remoto e das demandas escolares em casa.
Descobri uma marcenaria que estava atendendo remotamente, encomendei algumas madeiras e comecei a montar estantes baixas para acomodar os trabalhos que a escola enviava para casa. Na escola, nossa filha havia iniciado algumas atividades de pré-alfabetização e, em casa, também podia observar sinais evidentes dessa necessidade que pulsava dentro dela. Durante o banho, seus dedinhos desenhavam letras na porta do box coberta pelo vapor. Lembro-me bem de um dia ficarmos até tarde da noite escrevendo uma lista interminável de compras que, na verdade, era só um desejo irrefreável de internalizar a fonologia das palavras.
Com as escolas abrindo e fechando a todo momento, eu pensava em como podia apoiá-la em casa. Escrevi sobre isso em um post e Salomão comentou que estava pensando em fazer algo nesse sentido. Pouco tempo depois ele lançou um curso de alfabetização. Me inscrevi no curso e, neste mesmo período, com alguns moldes em mãos e um livro de Maria Montessori debaixo do braço, em parceria com uma fábrica de brinquedos local, produzi todos os materiais de linguagem que necessitava: encaixes metálicos, letras de lixa, alfabeto móvel. Em casa, ainda produzi diversos cartões.
Com a economia mundial instável, muitas empresas começaram a reduzir temporariamente os salários dos funcionários, a empresa do meu marido foi uma delas. A escola não aceitou nenhum acordo na mensalidade, mesmo nos períodos em que permaneceu fechada. Meu sogro passou quinze dias internado com o coronavírus. Nesse cenário insano, optamos por tirar nossa filha da escola. Com alguns materiais e um pouco de conhecimento, em meio à turbulência, vivi uma das experiências mais lindas da minha vida: alfabetizar a minha filha. Eu nunca vou me esquecer da emoção ao vê-la escrever e ler as suas primeiras palavras.
Diante da crescente visibilidade da página de Facebook do Caminhar Montessori, meu marido me encorajou a dar um passo à frente e criar um site, que foi colocado no ar em julho de 2020. Era uma forma mais interativa de levar conteúdo para famílias, educadores e simpatizantes da educação e filosofia montessoriana. Além disso, eu não ficaria dependente apenas das redes sociais. Com a pandemia no auge e a proibição dos eventos precisenciais, as lives e cursos online se tornavam uma nova ferramenta de ensino, comunicação e de sobreviver no mercado. Eu resisti muito a essa tendência, durante muito tempo, o que me fez perder muitas oportunidades importantes e gerou uma enxurrada de frustrações. Com o tempo, aceitei que esse seria o novo modo de vida e precisava me adaptar a ele.
Após uma publicação que emocionou muitas pessoas, pela primeira vez, fui convidada para participar de uma live. O convite partiu de Camila Isola, à época, diretora da Escola Montessori de Campinas. Era agosto de 2020. No mês seguinte, durante uma das lives de Salomão, o público pedia a minha participação ao vivo. Apesar de ter sido pega de surpresa foi um marco importante. Me dei conta de que eu precisava atender a esse chamado. Paralelo ao processo de transformação interior, surgiam muitas inquietações. Além disso, creio que o cenário pandêmico contribuiu para uma sensibilização maior. Um dia me peguei pensando: "Como eu, com as ferramentas que tenho agora, posso contribuir para que Montessori alcance mais crianças?"
Iniciei uma pesquisa em um grupo montessoriano para saber se havia pessoas ligadas ao Educadores sem Fronteiras (AMI EsF) no Brasil ou com projetos similares. A pesquisa causou uma grande repercussão. Muitas pessoas que compartilhavam da mesma inquietação respondiam ao post se apresentando e contando sobre seus projetos e sonhos. Envolvida por aquele sentimento coletivo, em setembro de 2020, iniciei o Ciclo de Lives: "Montessori para todos - da infância ao envelhecimento" no canal de Facebook do Caminhar Montessori. Inicialmente, o intuito era dar voz às pessoas que estavam envolvidas em projetos que levavam Montessori para crianças em situação de vulnerabilidade. No entanto, organicamente, os temas foram se ampliando à medida que os convidados ou público em geral, espontaneamente, traziam novas questões, igualmente importantes. Algumas histórias me levaram às lágrimas, ao vivo.
Em paralelo às Lives, o Caminhar Montessori iniciou uma Campanha de Apoio a Projetos Montessori. A Campanha visava criar pontes entre quem podia ajudar e quem precisava de ajuda para levar seus projetos adiante. A Campanha de Apoio a Projetos Montessori trouxe o apoio do professor Sérgio Portela, que em parceria com o Caminhar Montessori ministrou o curso "Observação e Direção de Sala Montessori". O curso foi gratuito e teve mais de 400 inscrições. Foram selecionados 60 participantes, respeitando o critério de seleção, que priorizou professores da rede pública de educação infantil, ONGs e projetos voltados a atender crianças em situação de vulnerabilidade social. O curso aconteceu de novembro a dezembro de 2020.
A última Live desse ciclo aconteceu em fevereiro de 2021 e foi marcada pela conversa com duas colegas portuguesas que anunciavam uma Formação de Assistentes Montessori 6-12 anos (AMI) organizada por elas, com tradução simultânea para o português. Uma formação importante e inédita para o púbico brasileiro. Aliás, uma das poucas coisas boas que o cenário pandêmico nos proporcionou foi a abertura da AMI para formações em formato online e híbrido. Eu estava imensamente feliz nessa Live, porque algo que antes parecia inalcançável, agora se tornava palpável. Eu estaria nessa formação a qualquer custo. Em abril de 2021 eu recebia o meu primeiro certificado AMI.
Essas pequenas conquistas me preparam para uma conquista maior: ser admitida no curso de formação e aperfeiçoamento da prática Montessori para educação infantil (3 a 6 anos) promovido pelo Centro de Estudos Montessori de São Paulo (CEMSP). Essa era a melhor oportunidade para pessoas que, como eu, são apaixonadas por Montessori, mas não dominam outros idiomas e não têm dinheiro para ir para fora. Pela primeira vez em tempos, eu chorava de alegria pela conquista. Assim como a AMI, pela primeira vez o CEMSP tinha um curso em formato híbrido. A formação se estenderia de 2021 a 2023, então, iniciamos em formato online e terminamos presencialmente. Aprendi um tanto enorme com Paige, Marion e Nieke. Pessoas incríveis, que dedicaram sua vida inteira à educação, por vocação e amor. Eu as guardarei em meu coração para sempre.
Grandes Mudanças
Lentamente, a pandemia se extinguia. Empresas de diversos setores, incluindo as escolas, ainda seguindo protocolos rígidos, reabriam suas portas. Eu havia me esforçado um tanto enorme e fiz tudo o que podia e sabia para apoiar a educação da minha filha em casa. Ela aprendeu a escrever, a ler, trabalhamos um pouco de matemática, vida prática e até meditação. Sempre que era possível e seguro, fazíamos passeios e a mantinha em contato com outras crianças. Mas, agora ela havia alcançado a idade para ingressar no ensino fundamental. A única escola Montessori na cidade atendia apenas a educação infantil. Eu estava no meio da formação Montessori de 3-6 anos e sabia que precisaria fazer estágio em uma escola que fosse credenciada. Nós duas precisamos de uma escola e em Santos não teríamos essa oportunidade.
Eu quase enlouqueci o marido até convencê-lo a mudar para São Paulo. Eu tinha como referência uma das escolas mais conhecidas no meio montessoriano, onde a diretora agora presidia a Organização Montessori do Brasil. Fomos visitar a escola e conhecer o bairro. A primeira vez fui sozinha, depois com o marido e a filha. O valor estava dentro do orçamento para uma boa escola, mas teríamos que arcar com os custos de um aluguel em São Paulo e alugar o nosso. Encontramos um bom lugar, com um condomínio perfeito, academia ao lado e a coisa mais importante: Chegávamos na escola em cinco minutos caminhando. Com o trânsito caótico de São Paulo isso era um luxo. Nos mudamos em dezembro de 2021. Em janeiro de 2022, nossa filha começaria na nova escola e eu me preparava para o primeiro módulo presencial da formação. Tudo parecia estar se normalizando.
Sem esperar, o universo me agraciou com a oportunidade de fazer estágio na escola dos meus sonhos: a Usina Pedagógica. Quando recebi o convite, não pensei na distância, em nada. Só aceitei. Minha mãe dizia que era uma loucura. Que eu não fazia ideia da distância e do trânsito que enfrentaria. Tanta gente já havia me dito que eu não conseguiria tanta coisa, inclusive, estar nesta formação. Não dei ouvidos. Eu nunca tinha pisado em uma sala de aula como docente. Não sabia como era a dinâmica de uma sala de aula. E eu realmente não tinha ideia da distância. De Santana de Parnaíba, onde ficava a escola, até o Jardim Prudência, onde ficava nossa casa, eram inevitáveis três horas de ônibus. No final do estágio, que também marcava o final do semestre, eu não tinha mais energia. Apesar do cansaço, foi uma experiência incrível. Eu continuei a formação e voltou a confeccionar materiais de linguagem. Todo o passo a passo das apresentações do meu álbum de linguagem tem fotos minhas, com materiais confeccionados por mim.
Em novembro de 2022, logo após termos feito a rematrícula de nossa filha, a escola anuncia que ia encerrar suas atividades. Foi um choque. Quem poderia imaginar que uma escola com 43 anos de história fecharia suas portas repentinamente? Como fazer a criança passar por mais uma adaptação escolar em tão pouco tempo? Uma criança havia passado por uma pandemia, mudanças de casa, de cidade.
Eu já pensava em desistir de São Paulo e retornar para Santos, quando recebi o convite para trabalhar em uma famosa escola da cidade, bem mais perto de casa. Como não tenho formação em pedagogia, ficaria com a vaga de assistente de sala, mas com um papel mais ativo por conta da minha formação. A vaga era para uma sala de 0 a 3 anos, e isso me preocupava. Eu não tinha formação nessa faixa etária. Mas a diretora pedagógica me convenceu de que daria tudo certo. Aceitei o convite.
Eu tinha uma escola para trabalhar, mas nossa filha ainda não tinha uma escola para estudar. Muitas dúvidas rondavam a minha cabeça. Há algumas escolas montessorianas em São Paulo, mas com ensino fundamental as opções são bem escassas. Uma das professoras da recém-fechada escola ia começar a trabalhar em uma escola no outro lado da cidade. Eu conhecia a escola e a diretora de longe, mas não tinha muitas referências sobre o ensino fundamental, pois a escola acabara de fundá-lo. A referência mesmo era a professora. Naquela ocasião, para deixar o apartamento alugado teríamos de pagar uma multa alta e eu ficaria longe do meu trabalho. Conversando com alguns pais, descobrimos que um colega de sala e de prédio estudaria na mesma escola. Conversamos com seus pais e, juntos, pensamos em uma solução que atenderia a todos: contratar uma motorista para levar e buscar nossas crianças. Não era o cenário perfeito, eu gostava de estar próxima da escola, de levá-la e buscá-la todos os dias, mas era o possível no momento.
No trabalho novo, a cada dia as crianças me cativavam mais. Vivi experiências de arrepiar os pelos do corpo e encher os olhos de lágrimas. Aquele grupo de crianças me fazia querer aprender mais sobre o que se passava em suas mentes, sobre essa fase de desenvolvimento. Mas nem tudo eram flores. Eu não sei explicar, mas, em geral, a escola tinha uma energia estranha e meu corpo parecia sentir isso. No final do primeiro semestre, contraí uma superbactéria que me fez ficar internada por seis dias e enfrentar um longo tratamento. Ao retornar, ainda respirava muito mal e minha cabeça doía toda vez que precisava abaixar. As crianças me receberam de volta com uma alegria enorme. Não posso dizer o mesmo da titular da sala. Pensando na minha saúde e na minha família, eu pedi demissão.
Em Busca do Sim
Enquanto me recuperava em casa, me dediquei a estudar sobre neurociência. Li dois livros de Stanislas Dehaene, escritor e neurocientista francês, indicado por Paige, uma das minhas formadoras. E, em setembro de 2023, no Congresso da Organização Montessori do Brasil, tive a alegria de assistir à palestra de Steve Hughes, um simpático neuropsicólogo pediátrico e grande entusiasta do método Montessori.
Vez ou outra, eu namorava alguns cursos da Associação Montessori Internacional, em especial, os cursos de uma fundação na Argentina. Mas, para mim, era como vislumbrar um artigo de luxo, daqueles que você deseja, mas sabe que nunca vai ter.
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Primeiro: o investimento era muito, muito alto.
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Segundo: eu jamais havia ficado um dia sequer longe da minha filha.
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Terceiro: o curso todo era em espanhol e eu não falava espanhol.
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Quarto: dos cinco módulos dois eram presenciais, ou seja, eu teria de viajar para outro país e arcar com todos os custos da viagem em cada módulo.
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Quinto: eu teria de passar na entrevista e enviar a carta de recomendação de três pessoas, mas só podiam ser professores ou gestores de algum lugar que eu tivesse estudado ou trabalhado recentemente.
Não, eu nunca poderia fazer isso. Eu já havia chegado na formação do CEMSP com muito custo. Isto bastava.
Meu marido começou a me rodear e fazer perguntas sobre essa formação. Ele queria saber mais detalhes. Enviei um link para ele e disse: "Olha, nem vai adiante com isso aí. É só um desejo, mas totalmente fora de cogitação". Mas ele insistia em dizer que o não eu já tinha, mas poderia ir atrás do sim. Eu resisti por um tempo. Mas ele me convenceu primeiro a me inscrever, depois a fazer a entrevista. Disse que a parte financeira, se economizássemos bastante, seria possível. Essa foi a parte mais difícil de entender por que, para mim, os números não fechavam. Para minha surpresa eu passei na entrevista; mesmo não sabendo nada de espanhol, eu compreendi bem tudo o que a diretora do curso dizia.
Mas ainda tinha um obstáculo: As cartas de recomendação. Eu não estava trabalhando em uma escola. Para quem pediria algo assim? Eu morro de vergonha de incomodar as pessoas, ainda mais para pedir uma coisa desse tipo. De novo, o marido me dizia que eu já tinha o não, que precisava ir atrás do sim. Mesmo morrendo de vergonha, escrevi às minhas formadoras do CEMSP, para uma amiga de jornada e duas diretoras de escolas em que havia trabalhado. A amiga foi descartada, porque no fim, não se encaixava nos critérios aceitos. Uma das diretoras da escola disse que faria a carta, mas acho que ela nunca enviou. A diretora da Usina e as minhas formadoras não só enviaram as cartas, como me incentivaram muito.
Bem, eu havia passado por duas fases importantes. Mas ainda não havia me convencido de que tínhamos dinheiro para arcar com todos os custos. O marido disse: "Você sonha com isso há anos, nós vamos dar um jeito. Complete a sua inscrição e me envie o link para o pagamento". Segui em frente. O primeiro módulo da formação de Guia AMI 0-3 anos iniciou em novembro de 2023. Neste mesmo período, nos mudamos para um apartamento mais perto da escola da nossa filha. Também terminava o extenso tratamento médico. As formações da AMI, desde a época em que eram ministradas por Maria Montessori em pessoa, sempre foram intensas e extensas. O nível de exigência sempre foi muito alto. Algumas formações duravam cerca de três anos, com 800 horas de observação de crianças. Na atualidade, o tempo de duração de uma formação AMI caiu pela metade, mas o nível de exigência se mantém alto. Isso significa que temos menos tempo para estudar e apresentar uma enxurrada de trabalhos escritos, além da confecção de materiais. Apesar de me sentir sempre exausta, eu estava amando profundamente o curso e cada tema. Eu jamais teria acesso a tantas informações sobre o desenvolvimento humano em outro curso. Era infinitamente mais do que eu podia imaginar.
A Travessia e a Transformação
Quando terminei o terceiro módulo do curso, o último módulo online, o marido anunciou que não teríamos dinheiro para a família toda ir à Argentina em setembro de 2024. Eu não esperava por isso. Como eu poderia ficar um mês em outro país sem a minha filha? Eu não iria. Para mim, estava acabado. Meu marido me dizia: "Você vai parar no meio do caminho depois de tudo o que já fez, depois de tudo que já investimos? Você vai para a Argentina".
Eu não queria ir, não queria deixar a minha filha, nunca havia viajado para outro país, nunca havia viajado sozinha, não dominava o idioma. Eu odiava o meu marido naquele momento. Ele resolveu todas as questões da viagem, eu não queria saber de nada daquilo.
No final, eu não tive muita opção. Fui preparando minha filha, conversando com a escola, pedindo apoio de pais de amigos da escola. Embarquei chorando no dia do meu aniversário. Mesmo falando com a minha filha duas vezes por dia por chamada de vídeo, eu chorava todos os dias de saudades. Somado a isso, havia o cansaço e os inúmeros contratempos que precisava enfrentar diariamente. Além das aulas que aconteciam no período da tarde e início da noite, pela manhã eu fazia estágio de observação e prática em uma escola em Tigre, cidade vizinha a San Isidro, onde ficava a Fundação. Tive a sorte de conseguir carona para ir e voltar com uma colega de curso. O horário era bem apertado, então, nosso almoço era um lanche no carro durante o trajeto. Sobrevivendo, mas a experiência como um todo foi agridoce.
O último módulo aconteceria cerca de quatro meses depois, no início do ano seguinte. Eu estava calejada com algumas coisas. Nossa filha também. Mas ela havia sentido mais dessa vez. Em fevereiro de 2025, na Argentina, ainda sem acreditar, eu recebia o meu diploma de Guia AMI 0-3 anos. As lágrimas escorriam no meu rosto. Um misto de emoções e sentimentos me invadia: esgotamento físico, mental e emocional, felicidade pela concretização de um sonho, saudade da minha filha, alívio pela missão cumprida.
Depois desses dez anos estudando Montessori, eu não me tornei uma pessoa perfeita, uma mãe perfeita. Entendi que eu tenho habilidades e debilidades. Forças e fraquezas. Aceitei que eu sou humana, que eu vou errar, vou me frustrar, vou sentir raiva, eu posso até cair eventualmente, mas todos os dias eu me esforçarei para ser a melhor versão de mi mesma. Aprendi que quanto mais eu tolero meus erros, mais tolerante e paciente eu sou com o outro. Mais que isso, eu modelo o comportamento do outro. Aprendi que por trás de um adulto difícil, de uma criança difícil, há camadas de necessidades não atendidas, de dores não acolhidas. A cada dia, eu sou uma pessoa nova, com um olhar novo para mim, para a minha filha e para a humanidade.
Ao longo dessa jornada transformadora, duas inquietações passaram a ecoar na minha mente todos os dias. A primeira, inspirada em Maria Montessori, é sobre cumprir a minha missão como mãe e educadora. A segunda, inspirada em Gandhi, é sobre ser a mudança que eu quero ver no mundo e, principalmente, servir como um agente transformador, esse é meu propósito de vida.
Por isso, o Caminhar Montessori não é mais sobre mim, é sobre segurar na sua mão, acender a lanterna e traduzir o mapa para você trilhar o seu caminho.
Vamos Caminhar Juntos!
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